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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Ten years gone

Podemos esquadrinhar incontáveis modelos teóricos sem nunca ter certeza sobre a forma e natureza do tempo. A física, contudo, não pode teorizar apontamento nenhum sobre a experiência humana na temporalidade. 
Este humilde espaço virtual foi iniciado por um menino recém-saído da graduação que achava que perdia muito tempo comentando os textos de outros blogs e que seria, então, mais apropriado criar o próprio.
Como precisar, no entanto, a noção de muito tempo? Veja-se o automobilismo, que nos encantou e levou-nos, justamente, a perder muito tempo no blog dos outros. Nele, os grandes feitos que se eternizam duram pouco mais de um minuto, em uma volta ao redor de um circuito qualquer.
Passei estes dez últimos anos quase integralmente na escola, deram-me mais dois diplomas que, sejamos francos, pouco me servem porque ninguém efetivamente entende qual a função deles; mudei de casa, casei, visitei outras partes do globo, quis não voltar de muitas delas.
A narrativa breve que dá sentido aos dez últimos anos deixa também entrever que uma década, como uma volta em torno de um circuito qualquer, passa em pouco mais de minuto e meio. Tão rápido que quase não dá para ver. 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Assista, assista!

Tenho certeza de que você irá assistir pelo menos a largada do GP do Brasil, próxima corrida do campeonato mundial de F-1, já que a largada às 14h não obrigada ninguém a programar o despertador e o campeonato poderá ser decidido aqui nas redondezas do trópico de Capricórnio e da Billings. 
Mas não deixe de ver também o GP do Brasil de 1979, no velho traçado de Interlagos. Tem este rapaz com um canal delicioso no YouTube, que posta muitas coisas interessantíssimas. O certame em questão tem Ligier dando couro, o Emersão encapetado e as Ferraris murchinhas. O traçado antigo é uma atração por si próprio. Ainda tem a narração do Luciano do Valle e os comentário de Reginaldo Leme, pela Globo, com uma música de abertura da transmissão muito melhor que a contemporânea. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A foto da capa

Não tinha me tocado, até ver o post do véi, ontem, que o GP da Espanha de 1986 completava 30 anos. Como eu mesmo tenho 31, não lembro de ter assistido o certame. A provocação é no sentido de explicar o porquê de ser esta a foto da capa do blog. Não ter visto a corrida está implicado neste porquê.
Enquanto estava crescendo, não havia internet, muito menos YouTube, como repositório de imagens e vídeos a ser acessado a todo tempo. Todo meu imaginário em torno do GP da Espanha de 1986 se formou em função de uma revista, uma espécie de anuário que saiu como publicação da Grid, que contava, corrida a corrida, a história daquela temporada. Creio que este exemplar ainda esteja guardado nas minhas coisas, lá em Ribeirão Preto.
A primeira foto que ilustrava o relato do GP da Espanha era a de Senna, no podium, agitando a garrafa de champagne com um sorriso meio amarelo, meio entendiado. Havia um contraste gritante entre aquele sorriso e a descrição da corrida, vencida pelo brasileiro com apenas 0,014s de vantagem sobre Nigel Mansell.
Depois, já mais velho e com acesso à internet, mas ainda sem YouTube, fiz o download de um vídeo que mostrava três lances da corrida e as três últimas curvas. Pelo que me lembro, demorou 12 horas para baixar. Era este aqui:


Basicamente, por anos, fora uma foto ou outra, um videozinho ou outro, isso era o que eu tinha visto do lendário GP da Espanha de 1986 que, como disse o narrador, logo no comecinho do vídeo, havia sido a chegada mais próxima entre dois concorrentes na história da F-1 moderna. Este dado continua sendo semi-verdade. Em 1971, houve uma chegada muito próxima entre quatro pilotos no GP de Monza (o vídeo está neste post do ano passado), mas os cronômetros ainda não se preocupavam com a casa milesimal, então a diferença registrada foi 0,01s; depois, veio esta entre Senna e Mansell, cuja diferença foi 0,014s, como já dito; e tem a outra famosa e quase patética chegada do GP dos EUA de 2002, quando Schumacher e Barrichello tentaram empatar a corrida. No fim, Rubim ganhou por 0,011s, sendo esta a menor diferença já registrada, desde o acréscimo da casa milesimal, entre primeiro e segundo colocado em um GP. Convenhamos, entretanto, que aquele "deixa que eu deixo você ganhar" não conta, vai. 
O blog foi criado em 2008, ano em que nos graduamos e ao longo de que eu ainda não tinha acesso à internet em casa. E-mail era só quando ia para Ribeirão ou em uma lan house. Impensável, hoje em dia, e nem faz tanto tempo assim. 
A foto da capa estava salva no meu computador há algum tempo e eu a utilizava às vezes como pano de fundo da área de trabalho. Agora, por que ela veio parar no blog? É muito simples, na verdade: a fotografia é, simplesmente, linda. Quando olhei para ela a primeira vez, demorei para entender que não se tratava de alguma montagem, pois seus elementos estão postos de maneira tão perfeita na composição que dá impressão que alguém os arranjou ali apenas para foto: o vencedor e o segundo colocado em primeiro plano, a bandeirada logo acima deles, o público prendendo a respiração, o podium colocado atrás do homem da bandeira quadriculada e, como arremate, o "Circuito de Jerez", que parece colocado ali pelo pessoal de marketing. Fora que o ângulo da fotografia não é lá muito convencional, com o fotógrafo no nível da pista do lado oposto ao dos boxes. 
Além disso, a foto é um resumo de uma época do automobilismo que gera saudade pela suposta competitividade e esportividade, tempo em que pilotos eram mais valorizados, exerciam mais influência e eram mais determinantes que os engenheiros. Tudo isso é verdade, em alguma medida. O que a foto não mostra - já que a foto só mostra o que ela quer, ou o que queremos nela ver - é que apenas três pilotos chegaram na mesma volta: os dois da foto e Alain Prost, em terceiro, 21s atrás; de Keke Rosberg, o quarto, até Patrick Tambay, o oitavo, todos tomaram volta; Tambay chegou com 6 (!) giros de atraso. 
Sim, é verdade, havia muito mais carros na competição. Nesta prova em Jerez, largaram 25. No entanto, Tambay - repito, o oitavo - foi o último dos que estavam na pista: do 9º ao 25º, 2 pilotos bateram e os outros 15 quebraram. Chegaram, portanto, 8. Muito mais competitiva aquela F-1, em que chegavam 8 carros e apenas 3 na mesma volta. 
Sim, esta última frase é uma ironia. Aquela F-1 era melhor, não tenho dúvida, mas não era pela competitividade. Tratava-se de pessoas reais, que fumavam, bebiam, iam para a gandaia, xingavam os outros e sujavam a mão de graxa que faziam as corridas. O gestor de marketing, o gestor de imagem, o gestor financeiro, gestor disso e daquilo, gente estranha que não entende muito de nada e artificializa tudo, eram ainda figuras em gestação, em um mundo sem YouTube.  

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Coisa linda

O vídeo abaixo contém, basicamente, as últimas cinco voltas do GP da Itália de 1971. Cinco carros brigando - e brigando duro - palmo a palmo pela vitória. Peter Gethin, Ronnie Peterson e François Cevert, acompanhados de Mike Hailwood e Howden Ganley (para reconhecer estes dois últimos, confesso que tive que recorrer ao GGL, como diria a Globo). 
A transmissão pela TV ajudava a aumentar o suspense: via-se os carros saindo da Parabólica e entrando na reta; os bólidos, então, somem na entrada da Curva Grande e só reaparecem entre as duas Di Lesmo; somem, de novo, entre a saída da segunda Di Lesmo e a entrada do que, hoje, é a Ascari, reaparecem na resta oposta, para a tomada da Parabólica. 
Eram outros tempos. Reparem nos maluquetes na Parabólica, tirando foto. Tem um semi-retardado em cima do guard-rail. Reparem também na combinação de ímpeto e lisura entre os primeiros colocados: apesar da briga feia, não há uma manobra suspeita sequer. 
Não dá nem para dizer "bons tempos", com aquele ar nostálgico, porque, mesmo naqueles tempos, isso aí era exceção. Deguste, portanto. 


Ah, o vencedor foi o Peter Gethin e o carro dele era branco.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O famigerado botão vremeio

Não sei se foi a Ferrari que inventou, mas foi o time rosso que vulgarizou a utilização do famigerado botão vremeio na história recente da F-1. A "mídia especializada" jura de pé junto que isso não existe e que os teóricos da conspiração estão viajando na maionese ou no óleo lubrificante.
O botão vremeio é uma ferramenta cujo uso implica o fodemento daquele piloto menos estimado pela scuderia em questão. Os modos de operação são diversos. Por exemplo, pode vir por meio de mensagens cifradas que significam, de modo mais ou menos claro, "saia da frente", como na Áustria em 2002:


Na Alemanha, 2010:



E as claríssimas ordens de Eddie Jordan a Ralf Schumacher em Spa, em 1998:



Outro mecanismo de botão-vremerlizar, bastante difundido nos tempos de reabastecimento, era o da pane seca, real ou simulada. Um dos exemplos mais bem acabados que a história nos oferece aconteceu no GP do Brasil de 2003. Era a grande chance de Barrichello vencer em casa e assumir a liderança do campeonato com uma vitória de vantagem sobre Schumacher.
Depois de um início de corrida difícil com o pneus intermediários que não geravam temperatura, o brasileiro fez uma ótima e madura recuperação, assumindo a liderança sobre Coulthard e virando, em seguida, dois segundos por volta mais rápido que o escocês. Mas, aí, foram só duas voltas... é de cortar o coração:



A temporada de 1999 foi uma das mais estranhas que assisti. Depois do acidente de Schumacher, parece que ficou um jogo de empurra entre Ferrari e McLaren para ver quem não ficaria com o título. Na corrida mesma em que Miguel se acidentou, a McLaren implementou o sistema econômico de pit stop, em que o piloto entra para a troca com quatro e sai com três roda: 





A Ferrari, no entanto, aperfeiçoou o sistema no GP da Europa, em Nurburgring, incorporando-o aos efeitos do pressionamento do botão vremeio, deixando Eddie Irvine uma vida inteira nos boxes esperando pela roda traseira direita para seu carro. Na verdade, Dona Gertrudes apurou que a equipe não esperava o irlandês nos boxes, mas o triciclo que apara a grama em Maranello:



Enfim, meu ponto é que a sabotagem faz parte da história da F-1 desde sempre até hoje. Por razões nem sempre claras para o público em geral - ou mesmo para a mídia dita especializada -, as equipes tem seus eleitos e trabalha em função deles. Todo time, quando chega aos autódromos, toma como segunda providência a instalação dos botões vremeios e seus sistema integrados em cada carro. E "se me negares o brilho do sol, eu não direito que tendes uma opinião, direito que sois cegos". 

terça-feira, 28 de abril de 2015

Quanto tempo fiquei?

Como toda pesquisa que pretenda reconstituir um evento do passado, não há precisão absoluta, mas não foi difícil estipular uma data. Bastou juntar o que sobraram das lembranças com um pequeno trabalho de arqueologia doméstica e o resultado foi 28 de abril. 
Era quinta-feira, véspera do seminário sobre universidades medievais na disciplina de História do Direito no segundo ano da graduação. O Monier me telefonou, estava livre naquela noite e daria para levar as coisas no seu carro. "Quer mudar hoje?", ele me perguntou. Queria, sim. 
O Kadettão estacionou em frente ao prédio em que morava no apartamento de minha tia. Abracei-a em gratidão e despedida. Ir embora, contudo, animava-me, e suas lágrimas, mesmo que me comovessem, não me detiveram. 
Deitamos o banco traseiro do carro, convertendo aquele espaço em um porta-malas que comportou toda minha mudança: um colchão, uma mala de roupas, cópias de textos e alguns livros. 
Com certeza era uma quinta-feira, como eu disse, véspera do seminário sobre universidades medievais. Não encontrei entre, os meus arquivos, o programa de História do Direito daquele ano de 2005,  quando fui aluno da disciplina  - o aluno não liga muito para esta papelada com quê não sabe lidar. Encontrei, por outro lado, o dos dois anos seguintes, 2006 e 2007, em que já era monitor. Até 2008, a disciplina seguiu um mesmo padrão de seis seminários por semestre, sempre às sextas-feiras pela manhã. Em 2006 e 2007, o referido seminário sobre universidades aconteceu na última semana de abril, nos dias 28 e 27, respectivamente. Deste modo, há grande probabilidade de que, em 2005, ele tenha ocorrido no dia 29 e que sua véspera, o dia da mudança, tenha sido dia 28, a quinta-feira.
Eis aqui um outro aspecto que se deixa de fora das informações passadas aos leitores nas pesquisas históricas: a arbitrariedade. Poderíamos marcar este aniversário em muitas outras datas, como o dia em que resolvemos alugar o apartamento, o dia em que assinamos o contrato, o dia em que terminamos de mobiliar... ok, não terminamos de mobiliar até hoje, mas poderia ser o dia em que Monier, finalmente, se mudou, algumas semanas depois de mim. Por que, então, marcar no dia 28 de abril de 2005 a data de nossa ocupação do apartamento da Maria Paula? Bem, poderíamos dedicar uns dois ou três parágrafos para explicar, mas, no fundo, a razão é que prefiro assim. A data da minha mudança, indo sozinho em um primeiro momento, é extremamente relevante para minha história pessoal. 
Lembro-me bem de ajeitar as coisas, com a ajuda do Monier. Minha cama já estava lá montada, havia dois sofás azuis na sala, um de três e outro de dois lugares. Havia, também, uma fruteira improvisada como rack para televisão, mas não havia, ainda uma televisão em cima dela. Na cozinha, uma geladeira e um fogão. No então futuro quarto do Monier, um ferro de passar e alguns outros utensílios. 
Naquela noite, deitei-me na cama sem os óculos e com os olhos abertos procurando medir o nível de luminosidade e de barulho no quarto. Havia muitos ruídos da rua, como era de se esperar, mas nada aflitivo. A luminosidade era grande. Não havia cortinas e a luz emanada de um poste projetava-se na parede por entre as frestas da janela formando uma interessante figura finamente lapidada pela miopia e pelo astigmatismo. Por muitos anos, não olhei esta projeção com os óculos para não estragar a imagem que dela tinha sem os mesmos.
No primeiro final de semana, tratei de comprar algumas coisas para a casa: pão de forma, queijo, sabonete, shampoo e um rodinho para escorrer a água da pia. O Monier, é claro, também fez as suas compras e, entre os bens adquiridos por ele, estava um segundo rodinho de pia. Anos mais tarde, às vésperas de sua partida do apartamento, comentei com ele, portando ares nostálgicos, de como fui responsável ao comprar aquele rodinho, que resistira intacto até aquela data. Fui então repreendido: "não, não. Fui eu quem comprou o rodinho". O episódio gerou em mim a absoluta desconfiança sobre o bom estado de minhas memórias. Tinha certeza da aquisição e lembrava com orgulho a madura decisão de comprar objeto tão caro à organização doméstica. Demoraram alguns dias para perceber que, na realidade, havia dois rodinhos na pia. A duplicidade estava ali por anos e eu, certamente, só notei porque pus em xeque minha sanidade mental. Minha desculpa é que eles eram praticamente idênticos e isso os tornava plenamente fungíveis e inaptos à distinção: um deles era de plástico laranja e, o outro, de alumínio. 
A distração, aliás, foi marcante durante todo este tempo e temos de agradecer à providência por o prédio não ter sido incendiado. Queimamos e derretemos no fogão toda sorte de panelas, bules, cafeteiras, sanduicheiras, chaleiras e afins. Lembro bem de, empolgado com a leitura ou com o vídeo-game, sentir cheiro de queimado, perguntar-me "de onde será que vem isso?" e, então, deparar-me com uma chaleira já sem o cabo e lamentar por ter perdido a água do chá para a atmosfera.

* * *

Em dez anos, o apartamento assumiu papéis diferentes. De república, em que alegre e frequentemente se recebiam os amigos, transformou-se na casa de um solitário professor, que cultivava severamente sua solidão. Hoje, encontra-se habitado por um simpático casal e serve como base de operações para incursões ao mundo maravilhoso de Ós. 
Apesar destas transformações de caráter ao longo da última década, na essência, tudo continua mais ou menos igual aqui dentro. O que realmente mudou foi o entorno. Claro que o centro de São Paulo continua muito parecido com o que tem sido, mas os convivas que moravam a uma, duas quadras, ou uma, duas estações de metrô, separaram-se, casaram-se, aprovaram-se em concursos, mudaram-se. De um jeito meio improvisado, enquanto eles foram, eu fiquei. 
Outro dia, estava no centro da sala e me dei conta de que, com exceção da cortina e da mesa, a disposição dos móveis e até de alguns documentos guardados, é, rigorosamente, a mesma desde o primeiro dia em que estivéssemos aqui. Não troquei o sofá, não pintei a parede, não reafixei os tacos no piso, não comprei novas estantes para livros, demorei anos para trocar a cama quebrada - e só troquei por ter ganhado uma nova -, não coloquei armários na cozinha ou cortinas nos quartos porque sabia-se-lá quando iria embora daqui. Uma república, afinal, é para ser temporária. E, no fim das contas, neste não saber até quando fico, fiquei por mais tempo do que tinha ficado em qualquer outra casa ao longo da vida. 
O improviso de estar sem saber se permaneço não é apenas como habito este apartamento. É o modo mesmo como me insiro no mundo, em uma passagem permanente por um caminho que não sei se trilho e não sei aonde vai dar.  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Barulho!

Além de dar choque, esses motores pseudo-elétricos tornaram a F-1 um categoria sem barulho. É engraçado como podemos não valorizar uma coisa quando ela se torna banal e está sempre ali. Se me dissessem, há dez anos, "vamos fazer F-1 sem barulho", acho que daria de ombros. Mas, agora que ele foi embora, sinto falta. 
O ruído dos motores V8 dos últimos anos antes da reforma do regulamento já era de impressionar. A primeira vez que ouvi de dentro do autódromo, fiquei embasbacado dias. Os motores contemporâneos não têm este poder. 
O blogueiro e baixinho oficial Flávio Gomes postou o vídeo abaixo, que exibe a Ferrari 412 T2, de 1995. Motor de 12 cilindros, um canhão. As imagens são bonitas e a trilha sonora, também. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pedaços no tempo

"Esta pizza, na minha lembrança, era melhor". Tive o mesmo pensamento nas duas últimas vezes em que estive naquele lugar. Entre estas ocasiões, três anos de intervalo que foram suficientes para que eu esquecesse que o pedaço de pizza não é, propriamente, ruim, mas talvez existam melhores.
Há três anos, foi depois da viagem, logo que ela chegou de Londres. Sentamos lá no fundo, no salão de baixo, e fui pedir embalagens para levar. A pizza pode não ser a melhor, mas seu pedaço é dos maiores. Se qualquer ingrediente estiver amargo, vai ser uma grande amargura pra levar pra casa.
Este ano iremos viajar também, para o mesmo lugar. Passamos na pizza, entretanto, antes do embarque. Acabávamos de comprar alguns mapas e guias, ela falava dos planos, livros, bibliotecas. Será o auge do inverno, haverá chuva, frio e cinza nostálgico. Não tem problema, contudo. Desta vez, vai ser igual para os dois, e haverá um pint de Old Speckled em cada pub.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Grandes mulheres e seus homenzinhos

Contam por aí que James Joyce era um sujeito arrogante, extremamente egoísta, que se utilizava da boa vontade das pessoas à sua volta para que lhe servissem em todas as suas necessidades, inclusive financeiras. Embora nunca tivesse um puto no bolso, não se importava em gastar o dinheiro alheio em caríssimas refeições, generosas gorjetas, apartamentos confortabilíssimos e viagens de férias. Mesmo com reservas aos automóveis e seus possuidores, não deixava de ir para cima e para baixo de táxi. Portava-se como uma espécie de messias com seus apóstolos, um sujeito perseguido por ser genial e que demandava constante apoio para cumprir sua missão na literatura. Não por mero acaso foram doze os escritores que contribuíram para divulgar, por meio de ensaios críticos, o livro que viria a ser intitulado Finnegans Wake, no volume "Our exagmination round his factification for incamination of Work in Progress".
O escritor irlandês tinha sérios problemas com álcool e contam que bebia todas as noites até seu corpo estar anestesiado ao ponto de não sentir que o cigarro queimava seus dedos. Joyce deixou de frequentar encontros e reuniões diurnas, pois era muito difícil para ele manter-se sóbrio se houvesse bebida disponível. Comprometeu-se, então, a expor-se ao álcool apenas depois das cinco da tarde.
Já nos últimos anos de sua vida, atormentado pela ideia de perseguição, pela falta de visão que atrapalhava o desenvolvimento de seu trabalho, pela constante necessidade de dinheiro e pela doença psiquiátrica sofrida pela sua filha Lucia, Joyce desenvolveu um certo grau de misoginia, o que pode soar como contrassenso se olharmos para as pessoas que o ajudaram a ser uma das figuras mais importantes da literatura universal.
Para que pudesse viver de seu trabalho como escritor, Joyce, que sempre teve dificuldade em publicar seus textos, até por conta de seu caráter vanguardista, dependia da ajuda financeira da senhorita Harriet Weaver. Encantada com o talento do artista, ela se comprometeu a auxiliá-lo para que sua obra fosse desenvolvida.
No entanto, mais do que o suporte financeiro, o escritor contou com ajuda em todos os outros campos de sua vida de uma outra mulher, que tomava conta de sua correspondência, de seus negócios pessoais, de adiantamento de royalties e empréstimos para as necessidades da família, angariava intelectuais e literatos para as resenhas críticas e para divulgação da obra de Joyce e, acima de tudo, foi responsável pela publicação do principal livro do irlandês, Ulysses. Trata-se da senhora Sylvia Beach.
É possível afirmar que sem Sylvia Beach, que escrevera apenas um livro de memórias ao longa da vida, a história da literatura do século XX seria outra, não só por causa da publicação de Ulysses, mas também pelo número significativo de associações criativas entre a literatura francesa e anglo-americana a que ela e sua companheira, Adrianne Monnier, fomentaram em suas livrarias na rue de l'Odeon em Paris do entre-guerras.
Nascida nos Estados Unidos, filha do pastor presbiteriano Sylvester Beach, Sylvia emigrou para Europa, vindo a fundar a célebre livraria Shakespeare & Company em Paris. O nome sobrevive nas proximidades do marco zero da capital francesa, nomeando, agora, a antiga livraria Mistral, de George Whitman. 
Sylvia Beach viu sua mãe suicidar-se em uma visita a Paris e manteve a informação sobre a razão de sua morte em segredo, a fim de preservar sua progenitora dos julgamentos da família; sua companheira, Adrianne Monnier, também tirou a própria vida e foi tratada com a mesma dignidade por Sylvia; um dos seus melhores amigos, Ernest Hemingway, também foi um suicida. 
Durante a ocupação nazista, um oficial alemão demandou, na Shakespeare & Company, que lhe fosse entregue o livro Finnegans Wake. Sylvia disse que a obra não estava a venda e que era seu único exemplar. O oficial disse que voltaria mais tarde, não só para o livro de Joyce, mas para todas as obras nas prateleiras. Com ajuda de sua assistente e de Adrianne, Sylvia encaixotou toda a livraria, escondendo o acervo no quarto andar do prédio que abrigava o estabelecimento. Foi o fim da história da Shakespeare & Company, que não mais reabriu. O oficial nazista ficou sem seu Finnegans Wake
Por seu legado como pessoa e pelo encorajamento às letras, homenageamos Sylvia Beach, nesta data que seria seu centésimo vigésimo sétimo aniversário.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Um pouco de F-1

Já estamos com saudade de assistir alguma corridinha e o YouTube provém um sem número de vídeos de certames antigos para os entusiastas se esbaldarem. 
O vídeo abaixo é muito interessante. Trata-se do primeiro treino oficial, realizado na sexta-feira, para o GP da Austrália de 1990. Senna havia assegurado, duas semanas antes, o bicampeonato mundial por meio daquela famosa batida em Prost na primeira curva do GP do Japão. Naquele tempo, o treino da sexta à tarde valia para a qualificação, de modo que conseguir um bom tempo poderia assegurar uma boa posição de partida para o domingo. 
A volta mais rápida de Senna nesta sessão foi 1:15:671, a mais rápida do fim de semana. Todos ainda viravam na casa de 1:17 quando Senna  virou a primeira volta na casa de 1:15. No fim do treino, apenas Prost e Alesi alcançaram 1:16, mas ainda 0.6 atrás do brasileiro. 
Na sessão de sábado, Senna não melhorou o tempo - quer dizer, não sei dizer se ele tentou melhorar. O segundo melhor tempo foi de Gerhard Berger com 1:16:244, mais de meio segundo, portanto, mais lento que a melhor marca de Senna no dia anterior, ainda que com o mesmo carro e um dia a mais de treino. Coisa de louco. 
A história da corrida - que, aliás, era a de número 500 da F-1 -, todos conhecem: Senna bateu bestamente, deixando a briga pela vitória entre Piquet e Mansell. O veterano brasileiro, que vencera no Japão seguido por Roberto Pupo Moreno, levou a Benetton à segunda vitória consecutiva. 
Destaque-se ainda a volta onboard com Alain Prost na Ferrari de transmissão semi-automática e de belo ronco proveniente do propulsor V12. 



E, aqui, o compacto da corrida, em que Piquet mostra para Mansell que ele ficaria na frente na última corrida da temporada. Note-se, narração de Cléber Machado. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A favor, pela primeira vez

Eu poderia dizer que nasci e, desde então, torci por Ayrton Senna. Em seguida, após a morte do piloto brasileiro, passei a torcer contra Schumacher. Torci para Damon Hill, porque ele era contra o alemão; Villeneuve, idem; os únicos que me despertaram uma torcida autônoma a favor, quer dizer, não só por serem antagonistas de Schumacher foram Häkkinen, Barrichello e, recentemente, Vettel. O resto, só reflexos de minha torcida contra o Sapateiro. 
De um jeito torto, acompanhei a carreira toda de Schumacher na F-1, e de modo sempre muito apaixonado - Schumacher era tudo o que eu não gostava em um piloto. Hoje, o distanciamento "histórico" me faz ver mais que eu via há alguns anos, mas, ainda tenho muitas reservas.
Por ser um ponto de referência desde meus tempos de menino, o acidente de ski do indestrutível Schumacher - o cara que ganhou uma corrida de F-1 no dia em que sua mãe morreu - foi muito triste. Torço por sua recuperação com muito mais força que torci ao longo de toda vida para que ele não ganhasse uma ou outra corrida. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um fio de cabelo

Sempre que encontro cabelo na comida, não me preocupo muito. Normalmente, trata-se de um dos meus próprios cabelos caídos. Assim, é melhor não fazer qualquer furdunço, pois é culpa exclusiva da vítima. Não foi o caso, entretanto. O anúncio foi feito ao gerente de forma polida:

"Não vou deixar de ser cliente, mas é bom que se registre. Olha aqui, o cabelo". 
"Eu agradeço. Todos os funcionários usam a toquinha, mas, com os clientes passando pela pista, sempre pode acontecer de cair alguma coisa. Quer se servir de novo?"
"Não, não, estou satisfeita". 
"Pegue uma sobremesa. Não quer?"
"Não, não, obrigada". 

Saímos em direção à rua, sem tomar café. Caminhamos em direção ao Largo São Francisco, tendo de esperar o semáforo para conseguirmos atravessar. Interessante que, agora, os semáforos para pedestres apenas piscam o verde e já voltam a sinalizar em vermelho sem dar tempo de chegar ao outro lado da rua, fazendo todo mundo sair correndo da frente dos carros. Tudo em nome do aumento do bem estar. 
Caminhamos margeando a Faculdade de Direito pela rua Cristóvão Colombo, observando como a cidade estava triste e sem cores, a ponto de ficar ela própria sem sentido. O assunto foi se dissipando conforme nos aproximávamos da Riachuelo. Ao atravessá-la, já no meio do caminho entre as duas calçadas, fazia uma imitação do Mr. Sheffield no The Nanny quando um estrondo nos fez voltar a cabeça. Só fui entender do que se tratava quando vi a moto e a pessoa que a guiava voando em minha direção. Fiquei parado entre a rua e o meio-fio, sem reação. Pensei que a motocicleta iria me acertar e julguei que poderia pará-la com as mãos - uma ideia estúpida que, felizmente, não levei a efeito. 
A roda traseira parou a um fio de cabelo dos meus pés. Estávamos todos bem, exceto pelo susto e pelo motociclista que levou alguns segundos até retomar a consciência. Caminhei até ele, como se procurasse alguma coisa que não sei bem o que era e, então, puxei o celular para discar 192. O policial que estava a postos em frente ao Ministério Público veio correndo em nossa direção e chamou a ajuda por rádio, informando que era sério. 
Enquanto prestava atenção aos procedimentos, pensei que, por muito pouco, não fora um acidente maior. Por muito pouco, não nos envolvemos nele. Se tivéssemos comido 50 gramas a menos, talvez saíssemos do restaurante uma fração de segundo antes do que, de fato, deixamos, sem encontrar um fio de cabelo no prato e outro entre meus pés e a moto. 
Ainda perto do acidentado, ouvi-o balbuciar: "por que ele fez isso?". Eis uma pergunta que não pude responder. Coloquei a culpa na cidade, que anda muito triste e sem sentido.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A primeira

Quando era menino, jogava futebol e, parece, era um bom goleiro. Sofria, então, do mesmo problema que sofro hoje: lembro-me que, em determinados dias, aconteciam defesas incríveis, eu pulava de um lado para o outro e não passava nada; em outra ocasiões, eu estava inseguro e um frango ou outro era esperado. Mas, em um bom dia, eu era um bom goleiro.
Para provar, tenho uma medalha guardada no fundo da primeira gaveta do guarda-roupa em Ribeirão Preto. Ela está dentro de uma embalagem azul que abrigou um relógio que ganhei naquela época.
Acho que o ano era 1996 e fui convocado pela esquadra da 4ª série A para pegar no gol no campeonato interclasse. Se não me falha a memória, éramos o segundo time da sala, o time "das sobras". Mas era um bom time. Claro que não teríamos chance contra a temida 4ª B: havia repetentes mais velhos, enormes e violentos. Como se isso não bastasse, jogavam no time infantil do Botafogo de Ribeirão, o que reduzia os confrontos com os demais times a mera formalidade até que chegassem ao título. 
De algum modo, nós chegamos à final do campeonato. Como não poderia deixar de ser, a partida seria  a contra a 4ª B. No entanto, para surpresa geral, os meninos que jogavam no Botafogo não apareceram na final, justamente porque tinham um jogo pelo pantera. Por essa razão, tínhamos uma chance de levar o caneco. Como goleiro, eu poderia estragar tudo - e quase o fiz, de fato. Primeiro chute a gol e não sei por quê diabos caí para o lado contrário da bola, jurando que ela havia desviado em alguma coisa.

"A bola desviou!" - bradei.
"Não começa, não, hein, goleiro!" - foi a bronca.

Tremendo como uma vara verde, fui me recompondo ao longo do jogo. Fiquei confiante de vez ao defender um penalti no final do primeiro tempo. Depois disso, a coisa entrou nos eixos. Havia uma série de cobranças diretas para o gol, como se fossem lances-livres do basquete. Aparentemente, era - ou é - alguma regra do futebol de quadra. Defendi todos! A certa altura, o cobrador oficial da 4ª B olhou bem para mim, após uma dessas defesas, e vociferou:

"Goleiro filho da puta".

Tive certeza, então, que estava indo bem.
Vencemos o jogo e o campeonato. Nunca vou esquecer aquela sensação muito gostosa e particular das competições esportivas. Tudo continuava igual, no dia seguinte teríamos aula, tínhamos de ir para casa fazer a lição, mas, naquele momento, estávamos felizes, batemos a 4ª B e nada tiraria aquilo de nós.
Aguardei meus pais chegarem do trabalho com a medalhinha no peito, todo orgulhoso. Para comemorar, fomos à lanchonete "Da Hora" que ficava do lado de casa. Meu pai tirou fotos minhas com o uniforme de goleiro e a medalha. Ainda hoje, remexo a gaveta para ver de novo aquela medalha.
Esta foi minha única conquista esportiva, embora eu sempre tenha praticado esportes. Como dito, o problema sempre foi a confiança e eu não me arrisquei mais em competições. No ano seguinte a este, fiz um teste para o time da escola e, como era um teste, com pessoas olhando, não consegui segurar nada e recebi a sentença:

"É, baixim... assim não vai dar".

Foi o fim da minha carreira de atleta. Parece que é verdade ser o menino o pai do homem, mas na exata medida em que o homem é o produto das potencialidades esquecidas do menino. Ou que o homem é o menino amedrontado.
Enfim, julguei que aquele torneio interclasse seria, para o resto da minha vida, o único sabor de vitória esportiva. Seria isso mesmo se, agora, depois de velho, não tivesse voltado ao mundo das competições. Meu sonho de menino era correr de kart e, hoje, posso fazer isso. Desde o início de 2012, eu e meu companheiro de equipe sueco passamos a correr uma vez por mês, pelo menos. Competimos em baterias abertas de outros kartistas amadores de forma honesta, sem violentar os demais e, com isso, fomos melhorando. Chegamos a fazer uma dobradinha, com o sueco na frente e eu em segundo, houve alguns pódiuns para um e para outro e a briga sempre foi muito acirrada. Até que chegou o dia 30 de agosto de 2013.
Tínhamos uma bateria agendada para 21h30 no Kartódromo da Granja Viana. Em razão de uma manifestação no Rodoanel, levamos duas horas e meia para chegar em Cotia e, claro, perdemos a bateria. Inscrevemo-nos em outra, às 23h30.
Sentei no kart ansioso como de costume. Olhei ao redor e me julguei mais lento que metade do grid. Lembrando-me de que estava ali apenas para brincar e me divertir, parti para qualificação. Acho que fiz o quarto melhor tempo, atrás do sueco que se classificou em terceiro. No entanto, dois pilotos mais experientes,  por qualquer razão que desconheço, optaram por sair do fundo pelotão, o que me fez largar na segunda colocação. Sueco na pole-position, eu ao seu lado na primeira fila. Quando alinhamos, estava um pouco aflito, lembrando de outras ocasiões em que fui derrotado por ele mesmo estando mais rápido na pista. Tinha, naquele dia, uma boa chance de vencer, mas, para isso, teria de superar meu grande amigo. Como fazer isso? 
Dada a largada, mesmo saindo pelo lado de fora e tendo de percorrer uma trajetória maior até à primeira curva, superei o pole-position e abri uma considerável vantagem na primeira volta. Contornar a primeira curva na frente é uma sensação bastante interessante, que te faz querer forçar tudo para ir mais e mais rápido. E assim fui, da primeira à última volta, procurando intensamente melhorar os tempos de volta.
Senti a liderança ameaçada ao longo de toda corrida. Havia muitos retardatários e, sempre que olhava para trás, havia algum kart próximo, de modo que não conseguia identificar se aquele era ou não o segundo colocado. Apenas quando recebi impressa a classificação final, notei que terminei a prova mais de vinte segundos à frente dos demais e que tinha sido dominante naquela noite. Os pilotos que saíram do fundo do grid chegaram em terceiro e quarto, virando tempos parecidos com os meus. 
Foi a primeira vitória no kartismo amador. Vale alguma coisa? Não, claro que não; significa que sou bom piloto? Muito menos! Mas tem um gostinho tão bom quanto um pint de Old Speckled e posso, com isso, beirando os trinta anos, voltar à meninice das brincadeiras e dos sonhos que se tornam verdade.  

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Há 25 anos

Engraçado que eu já tinha começado a escrever este texto quando fui ler o do Flávio Gomes sobre o mesmo assunto. Minha ideia era começar com "claro que eu não me lembro do GP do Japão de 1988"; ele começou com "claro que me lembro bem do GP do Japão de 1988". Ficou aí um paralelismo involuntário e interessante. 
Mas não lembro mesmo daquela corrida, pois contava com apenas três anos de idade. Era uma pessoinha que havia comido bolo estragado naquele dia, junto com a mãe que, naquela madrugada, também passava mal. 
É interessante, contudo, que mesmo sem ter assistido ao Grande Prêmio - e, ainda que o tivesse visto, não conseguiria lembrar -, aquela foi uma das corridas mais marcantes para mim, pois passei o resto da vida em busca de informações sobre aquele evento. 
Desde logo, ouvia as histórias contadas pelo meu pai: "o Senna ficou lá para trás e venceu. Foi de cagar". E, depois, da minha mãe: "eu estava passando mal e vem o teu pai me acordar de madrugada pra dizer que o Senna tinha ganhado. Tenha dó". Imaginei, então, que deveria ter sido uma corrida sensacional. 
E foi mesmo. As imagens daquela temporada estavam disponíveis no anuário da FISA (era FISA naquele tempo) que, no Brasil, era narrado pelo Reginaldo Leme. Adorava quando meu pai locava aquilo. A certa altura, conseguimos cópias do vídeo para ter em casa e não sei dizer quantas milhares de vezes assisti o resumo da temporada de 1988. Foram inúmeras. Devo saber de cor até hoje alguns trechos da narração do Reginaldo Leme. 
Acho que não é conveniente resumir os acontecimentos daquela corrida. As informações estão disponíveis por aí, há muitos e muitos vídeos no YouTube que condensam melhor que eu aquilo que foi relevante no certame de Suzuka aos 30 de outubro de 1988. Naquela disputa, Senna venceu seu primeiro título mundial de F-1 e começava a se formar, em mim, o gosto pelas corridas de automóvel. Ayrton Senna foi meu herói da infância - acho que foi o de muitos meninos da minha idade - porque ele ganhava corridas espetaculares e demonstrava grande alegria com aquilo. Era contagiante. Quando ele faleceu, eu contava com apenas nove anos e não tinha condições de comparar sua pilotagem com a do Piquet ou do Prost, não podia avaliar seu caráter como homem, nada disso naquele momento estava ao meu alcance. Era tudo muito mais simples que isso. Ele subia no carro, fazia o que pudia, e o meu papel era ficar feliz.
Hoje, buscando de novo uma alegria lúdica e fácil, comecei a montar um modelo na escala 1:8 da McLaren MP4/4 com quê Senna, há 25 anos, conquistou seu primeiro campeonato. Soubesse minha mãe quanto vai custar a brincadeira, teria uma indisposição maior que aquela do bolo estragado. 


sábado, 1 de junho de 2013

Um outro sábado

Acordei  num sábado de manhã um pouco atordoado. Notei que a televisão, ainda ligada, exibia um programa qualquer de fim de madrugada e que não havia visto o que ocorrera com o treino da F-1 para o GP da Austrália. Adiaram? Terminou? A chuva deu trégua?
Corri para checar na internet e confirmar que o treino tivera apenas um terço da duração programada. Dormi o resto da manhã.
O sábado automobilístico não parou por aí. À tarde, fomos ao Conjunto Nacional onde ocorreu o Velocult - uma exposição temática sobre a história das Mil Milhas de Interlagos. Carros que ajudaram a construir a história do automobilismo nacional expostos gratuitamente aos olhos dos admiradores. 
Estava lá a lendária Alfa Romeo do também lendário Belisse. Nunca vi o Belisse correr, nunca vi um vídeo dele correndo, nunca vi uma foto sua, mas sei que o cara mandava a bota, pois os suecos que viram atestaram que não tinha para ninguém, não. Mais importante que isso, foi ele que apresentou meu companheiro de equipe ao seu primeiro amor: o Kadettão I, hoje já falecido em algum canto do país. Está em curso, agora, o projeto Kadettão III, que será um kart, e o tal Belisse, que mandava a bota, está no começo de tudo isso. 
Eis a "alfinha": 



Drogaria Raia, a propaganda fica de graça, mas se quiserem financiar o próximo post, podemos começar a tratar de analgésicos por aqui.

A poucos metros dali, estava o Maverick pilotado por Luiz Pereira Bueno e Reinaldo Hernandez: 


Outra relíquia das mais preciosas, a Carretera 18, que venceu as 500 Milhas de de Interlagos de 1966. Curioso que 18 era o dia do aniversário de Wilma, mulher de Camillo Christófaro, o "Lobo do Canindé", que venceu a glamorosa prova em São Paulo em parceria com Eduardo Celidônio: 


Notável a presença do bonito bólido pilotado por Bia Figueiredo creio que na IndyLights (é isso mesmo?): 


Deixamos para o final as três peças que mais me encantaram. O primeiro carro abaixo é um protótipo HEVE, fabricado pela Herculano Veículos, de Herculano Ferreirinha, da equipe Hollywood: 



Foi ótimo ver também o Willys Interlagos, que foi pilotado por Bird Clemente. O bólido pertence a Sérgio Jorge e tem, na lataria, uma dedicatória de seu ilustre piloto ao proprietário: 




O carro abaixo me encheu de emoção. Trata-se do Karmann Ghia pilotado por Wilson Fittipaldi, José Carlos Pace e também por Emerson Fittipaldi no início de suas carreiras. O número 77 fez a pole-position em 1966, terminando a prova na oitava colocação: 





Enquanto andava de um lado para o outro contemplando o Karmann Ghia, avistei, a alguns passos dali, um senhor sentado atrás de uma mesa, ao lado de uma senhora que, imaginamos, seria sua mulher. Encarei o sujeito de maneira até mal educada. 

"O que você está olhando?"
"Acho que aquele senhor ali é o Alex Dias Ribeiro". 

E era mesmo. Autografava, na ocasião, seu novo livro. Depois de muito hesitar, aproximei-me, comprei o livro, imaginei aquele pequeno e simpático senhor que posava para uma foto ao meu lado em todos os carros que pilotara ao longo de sua carreira. Ainda recebi dele um presente: 

"Aqui está o último número da revista Racing. Saiu e hoje e, na página 14, tem uma carta que o Bird Clemente, o meu herói, escreveu para mim". 

Pois é, Sr. Alex. Nada melhor que encerrar o dia recebendo "aquele abraço" de nossos heróis. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Foi-se o Barão

Esta semana, em que temos a largada para a temporada de 2013 da F-1, começou com uma notícia triste: faleceu o Barão Fittipaldi. 
A importância da família Fittipaldi e do Barão para o automobilismo de forma geral é bastante conhecida. Apenas para ilustrar, em uma transmissão no ano passado em que participava o Emerson, Galvão Bueno se referiu a ele como "pai de todos nós que gostamos e acompanhamos a F-1 há anos". Bem, se o Emerson é o pai de todos nós, o Barão era o pai dele. 
A título de homenagem, fica, abaixo, um dos momentos mais marcantes da vida e carreira de Emerson e Wilson Fittipaldi e, sem dúvida, uma das coisas mais incríveis que já ouvi: no GP de Monza de 1972, o Barão contava para o Brasil todo que seu filho mais novo vencia a corrida, sagrando-se campeão mundial de F-1, sendo - vale mencionar -, à época, o mais jovem piloto a vencer o campeonato, além de ser o primeiro brasileiro da história a conquistar o mais importante certame automobilístico.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A mesma pré-temporada de sempre

É interessante como todos os meses de janeiro e fevereiro são iguais para a Fórmula-1. Todos estão preocupados em não desagradar os patrocinadores e patrões, dizendo que os carros estão muito melhores que os do ano passado, todos os dias de testes trazem a nova equipe sensação, a decepção e a surpresa da temporada. 
A verdade é que, para nós, aqui, sentados nas suntuosas sedes de nossos blogs, fica difícil saber quem está realmente bem ou mal, qual a consistência de cada equipe e de cada piloto, pois não podemos efetivamente conhecer as circunstâncias dos treinos, quais os objetivos de cada equipe, etc. 
Então, enquanto as luzes vermelhas não se apagam no dia 17 de março, dando início a mais um campeonato, contemplemos uma pré-temporada cujo desfecho já é bem conhecido. 


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Pessoinhas

É sabido que Jenson Button, Dan Wheldon e Anthony Davidson competiram juntos no kartismo inglês enquanto pessoinhas. Os três atingiram considerável sucesso na carreira, especialmente Jenson, que chegou ao título da F-1. No entanto, nem sempre a vida foi fácil para o campeão de 2009. Neste vídeo abaixo, 20 anos antes, vemos o inglês vertendo suas lágrimas por ter sido desclassificado de uma prova por conduta antidesportiva. Sorte para ele, lá estava o pai John Button para consolá-lo.


Neste outro vídeo, vemos, além de Jenson Button e Dan Wheldon, o piloto Justin Wilson, que chegou a andar de F-1 (2003, Minardi) e está, hoje, na IndyCar. Legal, após a corrida, a entrevista com Jenson, aos 9 anos de idade, e seu  orgulhoso pai.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

GP da Europa

O GP da Europa é, usualmente, utilizado como subterfúgio para que algum país europeu - normalmente, aquele de onde provém mais pecúnia - sedie dois grandes prêmios por ano. Atualmente, é a Espanha a privilegiada (ou onerada). Engraçado que, ainda hoje, a maior parte das corridas se passa na Europa e, mesmo assim, tem-se um GP da Europa...
Fato é que esse GP é itinerante, já aconteceu em Brands Hatch, Nürburgring, Jerez de la Frontera, Donington Park e em Valência. Este último circuito talvez seja, de todos por quê passou o GP da Europa, o mais criticado por proporcionar corridas pouco emocionantes. Pessoalmente, acho a pista divertida porque, apesar de ser um circuito de rua, o traçado contém trechos de alta velocidade combinados com freadas fortes que exigem perícia.
No entanto, um dos GPs da Europa mais marcantes - pelo menos, para mim - foi o de 1999, ocorrido em Nürburgring. Aquela corrida teve de tudo: uma largada que não aconteceu, capotagem, seco, chuva, seco, 708 líderes diferentes e a improvável vitória de Johnny Herbert, com Jarno Trulli em segundo lugar, seguido por Rubens Barrichello.
Infelizmente, o único "resumão" da corrida tem musiquinha (é sempre desagradável esses vídeos de corrida com musiquinhas ao fundo. Não sei para quê fazer isso), mas vale a pena.
Em seguida, o vídeo da primeira largada, em que ocorreu o acidente de Pedro Paulo Diniz, com a narração em alemão, que faz tudo ser mais difícil de compreender.

domingo, 1 de abril de 2012

México Lindo

Há séculos atrás, existia o GP do México de Fórmula-1 que ocorria no onduladíssimo traçado do autódromo Hermanos Rodriguez. Os hermanos em questão são Pedro e Ricardo Rodriguez - ambos, obviamente, mexicanos -, que competiram na F-1 com destaque nas décadas de 60 e 70.
A última vitória de um mexicano na história da F-1 foi, justamente, de Pedro Rodriguez, no GP da Bélgica de 1970.
No entanto, de lá para cá, a maior contribuição do México para o automobilismo foi o referido autódromo.


O traçado, encrustrado na cidade, tinha uma das mais belas curvas da F-1 (com um dos melhores nomes de curva também): a lendária Peraltada.
A curva, que levava à reta de chegada, tinha uma leve inclinação e era contornada com velocidade incrivelmente alta. Alguns belos momentos da história das corridas foram protagonizados ali:



Houve, também, momentos perigosos:


Alguns eventos inusitados aconteceram no GP do México, como a dor de barriga de Riccardo Patrese, em 1991 - o italiano, apesar dos incômodos no aparelho digestivo, venceu o certame; em 1986, Nigel Mansell também teve caganeira, mas na hora da largada: o inglês não conseguiu arrancar no momento do sinal verde e perdeu pontos importantes que lhe custariam o título daquela temporada.
É comum que associemos México àqueles dramalhões que o SBT passa no fim da tarde, como Maria do Bairro, e coisas assim. A própria história dos irmãos que dão nome ao circuito comprova que uma dose exagerada de emoção é própria da genética deste povo: ambos morreram na pista, pilotando.
A primeira vitória de Gerhard Berger na F-1, ocorrida no GP do México de 1986, teve um desfecho digno de novela. Ninguém sabia ao certo se o austríaco teria que parar ou não para botar borracha nova em seu Benetton. No fim, venceu por não parar para a troca e por conta dos problemas com Johanson e Patrese.




No último domingo, no GP da Malásia, o México voltou a ser o centro das atenções automobilísticas quando Sérgio Perez perseguiu implacavelmente Fernando Alonso, tirando 1,5s por volta, até receber o fatídico aviso pelo rádio de que deveria ter cuidado ao tentar a vitória. O mundo inteiro querendo ver o menino acabar com a Prima Dona e o merda do engenheiro pedindo cuidado. Que cuidado? O sujeito estava 1,5s por volta mais rápido, passar, nessas circunstâncias, é só questão de ter calma.
Depois de que um cara aí se esborrachou no muro para a Prima Dona ganhar o GP de Cingapura de 2008, eu não duvido de mais nada e não é absurdo pensar que a escapadinha do Perez no fim da corrida foi calculada para não ameaçar mais o mimadinho da mamã Ferrari. Todo mundo ventilou a hipótese de armação. O Luís Fernando Ramos, que entende do riscado, disse que não foi, não. Seja como for, ficou uma coisa estranha no ar.
Tudo indica que o mexicano substituirá Felipe Massa no próximo ano na equipe italiana. É uma pena. Servirá de escudeiro da Prima Dona e, caso o espanhol seja campeão por antecipação, poderá brigar por uma duas vitórias por ano como concessão da equipe e do Banco Santander pelos bons serviços de escudeiro prestados ao longo da temporada.
Assim, o resultado do GP da Malásio pode ter sido triste, na medida que pode significar que o Perez já sucumbiu aos mandos e desmandos dos homens de vermelho. Por outro lado, podemos pensar que, pelas mãos e pés do piloto, o México voltou ao cenário automobilístico e que o país, com suas paixões escabrosas e absurdas, continuará lindo, lindo.