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quarta-feira, 8 de abril de 2020

Chômage

Fevereiro foi-se junto com o carnaval; gosto de fevereiro, quando o ano ainda é fresco e nos engana com o truque de parecer suficiente para dar conta da vida. Então, passa o feriado, março vem e começa a espremer o tempo entre os dedos numa tentativa desesperada de não deixá-lo fugir.
O mês passou atordoado. Corria para cima e para baixo as escadas do metrô, mesmo sem saber o porquê da pressa ou aonde o trem levaria. 
Semanalmente, um aplicativo no celular informa sobre a evolução do índice de desemprego na França; na estante, livros lidos e não lidos se acumulam, ao lado das inescapáveis tarefas pragmáticas a realizar; outro dia, estava passando em frente ao museu e resolvi entrar: "há tempo", constatei com assombro. 
Com medo de perdê-las, deixo para as horas um orifício menor que o de um funil. Há, todavia, uma porta larga por que poderíamos passar confortáveis, eu e elas. Acumula-las-ia do outro lado do batente questionando, uma a uma, sobre o caminho dali em diante. Só elas saberiam. 
Almocei com um amigo antes que março se esvaísse e, quando fomos ao caixa pagar pela refeição, aproximou-se um homem com uma bolsa caída sobre os ombros, dirigindo-se ao dono do restaurante: 
"Boa tarde. Eu sou eletricista e passo pelos estabelecimentos para perguntar se há necessidade de alguma reparo, algum serviço a ser feito". 
"Hoje, não, obrigado", respondeu o proprietário. Talvez outro dia tivesse. 
O homem saiu. Quis interpelá-lo a respeito de seu cartão de visitas; se não tivesse cartão de visitas, ofereceria ajuda para que conseguisse. Fiquei apenas parado, contudo, observando o eletricista que ia embora, desejando profundamente que encontrasse, sem aflição, as suas horas.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Gênios da quarentena

A cada quinze minutos, recebo um lembrete: Shakespeare escreveu Rei Lear; Newton inventou a modernidade; Munch ficou doente, mas, mesmo assim, jamais deixou de pintar. E é claro que eles não se destinam ao incentivo ou ao compartilhamento de curiosidades com duvidoso grau de acurácia histórica. São mensagens que vêm lá da seção de auto-ajuda-corporativa, que querem te informar que você não fez nada de útil - porque, oras, quem é que, mesmo fora da quarentena, vai escrever o Rei Lear? -, que seus esforços para tentar permanecer vivo não bastam, é necessário produzir, produzir, produzir.  
No futuro, para meus sobrinhos e afilhados, vou dizer que produzi este post

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Hashtag Fica a dica, como diz o outro

Registro aqui e aqui ideia para meu presente de aniversário neste ano. Autorizo, excepcionalmente, a utilização de toda a verba que seria destinada para o presente de Natal, para a minha quota da ceia e o bolo de aniversário visando a aquisição do souvenir
Encaminharei, oportunamente, os dados para entrega. 

sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Adilson

Acabo de acordar de um sonho gostoso: uma antiga aluna, hoje amiga, estava se casando. A cerimônia era bonita, tinha ares de teatralidade e o noivo utilizava um batom roxo. Preciso contar isso para ela.
Havia, no entanto, uma constante sensação, enquanto sonhava, de que esperava por algo, a forte presença do ausente que me gerava ansiedade. Bom, quem sabe, seja só reflexo das últimas leituras de Paul Ricoeur. 
Enquanto cumprimentava o noivo do casamento sonhado, invadiu-me uma grande vontade de chorar. Julguei estar emocionado com o cerimônia. Talvez, por outro lado, já fosse reflexo dos gritos que, afinal, acordar-me-iam. 
Alguém berrava desesperada e repetidamente na rua: "Adilson!", "Adilson!", "Adilson!". Fiquei prestando atenção para tentar entender o que acontecia, mas não pude distinguir muita coisa, exceto que meu distante interlocutor não fazia parte do sonho e parecia estar tomado de forte comoção. 
Filho do meu pai que sou, passei a arrolar todas as hipóteses trágicas possíveis: a) Adilson morreu; a.1) com um tiro que não ouvi, pois estava em um casamento; a.2) de overdose no final da balada; a.3) atropelado. Não houve sirenes e quem berrou foi apenas um indivíduo, que poderia, por qualquer razão, ter imaginado a morte de Adilson. Levantei, então, a hipótese de que b) Adilson não tivesse morrido. Por que, então, berravam seu nome? b.1) Adilson pode, de fato, ter passado mal e, em desespero por não saber o que fazer, seu namorado e/ou amigo gritou seu nome até acordar alguém que também não ajudou; b.2) Adilson estava em um surto psicótico e gritava o próprio nome; b.3) Adilson encerrou seu relacionamento amoroso, para desespero de meu interlocutor.
No final das contas, não sei nada sobre o Adilson, exceto que alguém que o conhecia chamava seu nome realmente muito alto nas proximidades do nosso apartamento, o que interrompeu uma linda cerimônia de casamento. Espero, sinceramente, que esteja tudo bem com ele e, se não estiver, que se recupere. 
Desenvolveu-se comigo, como efeito do infortúnio do Adilson, o pior tipo de insônia, que é esta que a gente tem depois que já dormiu e acordou pouco depois. Fiquei por ali, tentando dormir de novo e, como se vê, não deu. Levantei e escrevi este texto.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Quanto tempo fiquei?

Como toda pesquisa que pretenda reconstituir um evento do passado, não há precisão absoluta, mas não foi difícil estipular uma data. Bastou juntar o que sobraram das lembranças com um pequeno trabalho de arqueologia doméstica e o resultado foi 28 de abril. 
Era quinta-feira, véspera do seminário sobre universidades medievais na disciplina de História do Direito no segundo ano da graduação. O Monier me telefonou, estava livre naquela noite e daria para levar as coisas no seu carro. "Quer mudar hoje?", ele me perguntou. Queria, sim. 
O Kadettão estacionou em frente ao prédio em que morava no apartamento de minha tia. Abracei-a em gratidão e despedida. Ir embora, contudo, animava-me, e suas lágrimas, mesmo que me comovessem, não me detiveram. 
Deitamos o banco traseiro do carro, convertendo aquele espaço em um porta-malas que comportou toda minha mudança: um colchão, uma mala de roupas, cópias de textos e alguns livros. 
Com certeza era uma quinta-feira, como eu disse, véspera do seminário sobre universidades medievais. Não encontrei entre, os meus arquivos, o programa de História do Direito daquele ano de 2005,  quando fui aluno da disciplina  - o aluno não liga muito para esta papelada com quê não sabe lidar. Encontrei, por outro lado, o dos dois anos seguintes, 2006 e 2007, em que já era monitor. Até 2008, a disciplina seguiu um mesmo padrão de seis seminários por semestre, sempre às sextas-feiras pela manhã. Em 2006 e 2007, o referido seminário sobre universidades aconteceu na última semana de abril, nos dias 28 e 27, respectivamente. Deste modo, há grande probabilidade de que, em 2005, ele tenha ocorrido no dia 29 e que sua véspera, o dia da mudança, tenha sido dia 28, a quinta-feira.
Eis aqui um outro aspecto que se deixa de fora das informações passadas aos leitores nas pesquisas históricas: a arbitrariedade. Poderíamos marcar este aniversário em muitas outras datas, como o dia em que resolvemos alugar o apartamento, o dia em que assinamos o contrato, o dia em que terminamos de mobiliar... ok, não terminamos de mobiliar até hoje, mas poderia ser o dia em que Monier, finalmente, se mudou, algumas semanas depois de mim. Por que, então, marcar no dia 28 de abril de 2005 a data de nossa ocupação do apartamento da Maria Paula? Bem, poderíamos dedicar uns dois ou três parágrafos para explicar, mas, no fundo, a razão é que prefiro assim. A data da minha mudança, indo sozinho em um primeiro momento, é extremamente relevante para minha história pessoal. 
Lembro-me bem de ajeitar as coisas, com a ajuda do Monier. Minha cama já estava lá montada, havia dois sofás azuis na sala, um de três e outro de dois lugares. Havia, também, uma fruteira improvisada como rack para televisão, mas não havia, ainda uma televisão em cima dela. Na cozinha, uma geladeira e um fogão. No então futuro quarto do Monier, um ferro de passar e alguns outros utensílios. 
Naquela noite, deitei-me na cama sem os óculos e com os olhos abertos procurando medir o nível de luminosidade e de barulho no quarto. Havia muitos ruídos da rua, como era de se esperar, mas nada aflitivo. A luminosidade era grande. Não havia cortinas e a luz emanada de um poste projetava-se na parede por entre as frestas da janela formando uma interessante figura finamente lapidada pela miopia e pelo astigmatismo. Por muitos anos, não olhei esta projeção com os óculos para não estragar a imagem que dela tinha sem os mesmos.
No primeiro final de semana, tratei de comprar algumas coisas para a casa: pão de forma, queijo, sabonete, shampoo e um rodinho para escorrer a água da pia. O Monier, é claro, também fez as suas compras e, entre os bens adquiridos por ele, estava um segundo rodinho de pia. Anos mais tarde, às vésperas de sua partida do apartamento, comentei com ele, portando ares nostálgicos, de como fui responsável ao comprar aquele rodinho, que resistira intacto até aquela data. Fui então repreendido: "não, não. Fui eu quem comprou o rodinho". O episódio gerou em mim a absoluta desconfiança sobre o bom estado de minhas memórias. Tinha certeza da aquisição e lembrava com orgulho a madura decisão de comprar objeto tão caro à organização doméstica. Demoraram alguns dias para perceber que, na realidade, havia dois rodinhos na pia. A duplicidade estava ali por anos e eu, certamente, só notei porque pus em xeque minha sanidade mental. Minha desculpa é que eles eram praticamente idênticos e isso os tornava plenamente fungíveis e inaptos à distinção: um deles era de plástico laranja e, o outro, de alumínio. 
A distração, aliás, foi marcante durante todo este tempo e temos de agradecer à providência por o prédio não ter sido incendiado. Queimamos e derretemos no fogão toda sorte de panelas, bules, cafeteiras, sanduicheiras, chaleiras e afins. Lembro bem de, empolgado com a leitura ou com o vídeo-game, sentir cheiro de queimado, perguntar-me "de onde será que vem isso?" e, então, deparar-me com uma chaleira já sem o cabo e lamentar por ter perdido a água do chá para a atmosfera.

* * *

Em dez anos, o apartamento assumiu papéis diferentes. De república, em que alegre e frequentemente se recebiam os amigos, transformou-se na casa de um solitário professor, que cultivava severamente sua solidão. Hoje, encontra-se habitado por um simpático casal e serve como base de operações para incursões ao mundo maravilhoso de Ós. 
Apesar destas transformações de caráter ao longo da última década, na essência, tudo continua mais ou menos igual aqui dentro. O que realmente mudou foi o entorno. Claro que o centro de São Paulo continua muito parecido com o que tem sido, mas os convivas que moravam a uma, duas quadras, ou uma, duas estações de metrô, separaram-se, casaram-se, aprovaram-se em concursos, mudaram-se. De um jeito meio improvisado, enquanto eles foram, eu fiquei. 
Outro dia, estava no centro da sala e me dei conta de que, com exceção da cortina e da mesa, a disposição dos móveis e até de alguns documentos guardados, é, rigorosamente, a mesma desde o primeiro dia em que estivéssemos aqui. Não troquei o sofá, não pintei a parede, não reafixei os tacos no piso, não comprei novas estantes para livros, demorei anos para trocar a cama quebrada - e só troquei por ter ganhado uma nova -, não coloquei armários na cozinha ou cortinas nos quartos porque sabia-se-lá quando iria embora daqui. Uma república, afinal, é para ser temporária. E, no fim das contas, neste não saber até quando fico, fiquei por mais tempo do que tinha ficado em qualquer outra casa ao longo da vida. 
O improviso de estar sem saber se permaneço não é apenas como habito este apartamento. É o modo mesmo como me insiro no mundo, em uma passagem permanente por um caminho que não sei se trilho e não sei aonde vai dar.  

quarta-feira, 18 de março de 2015

O destino de tudo

Demoramos para descobrir o lugar que estava já na esquina de casa há algum tempo. Comida honesta a um preço honesto. Difícil encontrar duas vezes a honestidade em um mesmo lugar. 
Não ostentavam qualquer sinal distintivo, mas era possível reconhecer à distância quem eram as pessoas que trabalhavam no estabelecimento. Todos tinham narizes uniformemente moldados. 
De umas semanas para cá, trocaram os narizes. De pouco em pouco, foram saindo e dando lugar a outros, diferentes entre si. O ambiente agora tem um outro padrão e os narizes, envoltos em uniformes cor de vinho tinto, não chamam mais atenção.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pedaços no tempo

"Esta pizza, na minha lembrança, era melhor". Tive o mesmo pensamento nas duas últimas vezes em que estive naquele lugar. Entre estas ocasiões, três anos de intervalo que foram suficientes para que eu esquecesse que o pedaço de pizza não é, propriamente, ruim, mas talvez existam melhores.
Há três anos, foi depois da viagem, logo que ela chegou de Londres. Sentamos lá no fundo, no salão de baixo, e fui pedir embalagens para levar. A pizza pode não ser a melhor, mas seu pedaço é dos maiores. Se qualquer ingrediente estiver amargo, vai ser uma grande amargura pra levar pra casa.
Este ano iremos viajar também, para o mesmo lugar. Passamos na pizza, entretanto, antes do embarque. Acabávamos de comprar alguns mapas e guias, ela falava dos planos, livros, bibliotecas. Será o auge do inverno, haverá chuva, frio e cinza nostálgico. Não tem problema, contudo. Desta vez, vai ser igual para os dois, e haverá um pint de Old Speckled em cada pub.


domingo, 28 de dezembro de 2014

#somostodosostrogodos

Ela entrou no quarto, animada. Avistou sobre a caixa de som feita de criado o mudo o volume sobre ensino e cultura na Idade Média. 
"Ah, eu adoro coisas medievais. Você joga RPG?" 
"Não, não jogo RPG, não. Você joga?"
"Ah, eu adoro!", respondeu inclinando-se para deitar quanto olhava para mim com as mãos atrás da cabeça, ajeitando os cabelos para que não se amassassem tanto sobre o travesseiro. 
"Eu nunca me interessei muito", disse eu, em pé ao lado da cama, folheando a introdução ao livro. 
"Ah, mas eu sempre fiquei entusiasmada com coisa de dragão, armadura, sabe? Desde pequena gostei da Idade Média". 
Virei-me para ligar o rádio. Sintonizei em uma estação qualquer enquanto procurava um disco na estante. Ela prosseguiu:
"É estranho você não gostar. Meus amigos adoram RPG e eles são muito cultos, professores de faculdade. Você precisa se levar menos a sério, daí você iria se divertir com estas coisas. E Tolkien? Dele você gosta?". 
"Então, todos falam bem, mas ainda não li nada. Ele não escreveu já no século XX?"
"Sim, é verdade. Mas é bem medieval", sentenciou.
Querendo cortar o assunto, perguntei:
"E o Boécio? Você já leu o Boécio? Agostinho? O pseudo-Dionísio Areopagita? Se você gosta de coisa medieval, deve ter lido estes caras, não?".
"Não, não. Não conheço". 
Ficou olhando para mim com olhar meio perdido. Imbecil.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Trintão

Era a última profecia do meu pai que se concretizava. Estava em um auditório, sentado nas fileiras, quando alguém tirou uma foto de cima para baixo, reproduzindo a vista de quem olhasse da platéia a bancada em que se realizavam as conferências. Aquele, de costas, era eu, sem dúvida. Eu estava careca.
Não se trata, todavia, de uma calvície plena e absoluta. Ainda há, no topo da cabeça, vestígios de cabelo e, com estes parcos fios e a necessidade de ajeitá-los todas as manhã, resta ainda a percepção de se ter cabelo.
As minhas entradas remetem aos tempos de juventude. Tinha ainda uns quinze anos quando meu cabelo deixou de ter toda aquela pujança. Naquele tempo, eu atribuía o fato a dois fatores: meu desejo de não ter cabelo, em vista das dificuldades de convivência social que ele me trazia, e a maldição do meu pai, que desde minha infância informava que eu ficaria míope, deveria tomar muita água - e, eventualmente, cerveja -, já que certamente seria agraciado com pedras no rim e, por último, a carequísse. "Seu avô é careca e quase todos os seus tios também. Tenho pouco cabelo e é provável que o perca todo", dizia ele. No fim, a profecia funcionou só para mim. Meu pai ainda exibe uma potencialidade de topete bastante invejável, fez cirurgia nos olhos para não ser mais míope e há muitos anos não tem pedra no rim - muitos mais anos do que eu.
Este "fantasma" me acompanha desde muito. A  calvície não surgiu com um golpe de surpresa. Ela já era esperada e percebê-la foi, na realidade, um alívio. Está aí, é o fim do meu ciclo cabeludo. Acabou a expectativa e eu não tenho mais que brigar contra a natureza.

* * *

Algo em torno de um mês e meio após a famigerada e reveladora foto - revelou grande parte do meu couro cabeludo -, fui correr de kart. Havia 20 pilotos na pista, mas a disputa pela vitória ficou restrita aos dois ponteiros. Larguei na pole, liderei todas as voltas e fiz a volta mais rápida. No entanto, a corrida não foi fácil, pois fui pressionado pelo segundo colocado que esteve muito perto e ameaçou ultrapassar durante todo o certame. Neste tipo de situação, eu costumava sentir a pressão, acabava errando e abandonava a disputa pela vitória. Não foi o que aconteceu desta última vez. Percebi que aprendi bastante com a experiência, soube aproveitar a vantagem que tinha e aguentei firme, a despeito de alguns "empurrões" do meu competidor. 
Quando paramos nos boxes e nos cumprimentamos, notei que meu adversário devia ter vinte e poucos anos. Era quase dez anos mais novo que eu, portanto. Trocamos algumas palavras cordiais e senti-me como uma espécie de Rubens Barrichello vencendo o G.P. da Europa de 2009 sobre Lewis Hamilton. Quer dizer, aquele rapaz tende a ser bem melhor que eu - claramente, ele treina seriamente e já anda há mais tempo -, mas ainda não é. 

* * *

"O que você vai querer para o seu aniversário?". Esta é a pergunta padrão da minha mãe, todos os anos. Minha resposta anual é não querer nada, mas, mesmo assim, sempre se organiza ao meu redor alguma comemoração.
A data do meu aniversário faz com que as pessoas que não são da minha família estejam indo ao encontro dos seus, enquanto que os meus parentes estão chegando para a comemoração do Natal. A sensação que tenho é de que querer comemorar o aniversário é uma forçação de barra, afinal, não faria sentido constranger as pessoas a estarem comigo. Eu só nasci e, neste ato, não há, rigorosamente, qualquer mérito meu. 
Neste ano, no entanto, parecia importante marcar a passagem da década. "Tenho que comemorar, não é? Trinta anos...". 
E, então, foram todos chegando: familiares queridos, os primos que cresceram comigo, amigos que vejo todas as semanas, amigos que almoçam comigo, outros que jantam, amigos que não via há anos, outros que expulsaram os fantasmas de casa, amigos que moram perto, outros que moram longe e, ainda, os pequenos amigos que percorreram seus primeiros trezentos e poucos quilômetros de estrada para me ajudar a cortar o bolo. Todas as presenças imensamente significativas em suas individualidades. 
Não sei bem como minha mãe conseguiu isso. Mais difícil que juntar este povo todo é fazer despertar uma sensação rara. Se estiveram todos aqui, minha vida tem sido mais que perder cabelos no caminho.  

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Parece que não voltei

A ideia era voltar a escrever com regularidade por aqui, não era?
Bem...


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

De volta?

Depois de algum tempo fazendo apenas posts semestrais, pretendo voltar a ser mais assíduo neste blog, que, segundo meu pai, encontra-se em estado de abandono. Pode ser verdade. 
Há alguns anos, uma grande amiga notou que eu escrevia para descansar. Estou precisando de descanso. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Grandes mulheres e seus homenzinhos

Contam por aí que James Joyce era um sujeito arrogante, extremamente egoísta, que se utilizava da boa vontade das pessoas à sua volta para que lhe servissem em todas as suas necessidades, inclusive financeiras. Embora nunca tivesse um puto no bolso, não se importava em gastar o dinheiro alheio em caríssimas refeições, generosas gorjetas, apartamentos confortabilíssimos e viagens de férias. Mesmo com reservas aos automóveis e seus possuidores, não deixava de ir para cima e para baixo de táxi. Portava-se como uma espécie de messias com seus apóstolos, um sujeito perseguido por ser genial e que demandava constante apoio para cumprir sua missão na literatura. Não por mero acaso foram doze os escritores que contribuíram para divulgar, por meio de ensaios críticos, o livro que viria a ser intitulado Finnegans Wake, no volume "Our exagmination round his factification for incamination of Work in Progress".
O escritor irlandês tinha sérios problemas com álcool e contam que bebia todas as noites até seu corpo estar anestesiado ao ponto de não sentir que o cigarro queimava seus dedos. Joyce deixou de frequentar encontros e reuniões diurnas, pois era muito difícil para ele manter-se sóbrio se houvesse bebida disponível. Comprometeu-se, então, a expor-se ao álcool apenas depois das cinco da tarde.
Já nos últimos anos de sua vida, atormentado pela ideia de perseguição, pela falta de visão que atrapalhava o desenvolvimento de seu trabalho, pela constante necessidade de dinheiro e pela doença psiquiátrica sofrida pela sua filha Lucia, Joyce desenvolveu um certo grau de misoginia, o que pode soar como contrassenso se olharmos para as pessoas que o ajudaram a ser uma das figuras mais importantes da literatura universal.
Para que pudesse viver de seu trabalho como escritor, Joyce, que sempre teve dificuldade em publicar seus textos, até por conta de seu caráter vanguardista, dependia da ajuda financeira da senhorita Harriet Weaver. Encantada com o talento do artista, ela se comprometeu a auxiliá-lo para que sua obra fosse desenvolvida.
No entanto, mais do que o suporte financeiro, o escritor contou com ajuda em todos os outros campos de sua vida de uma outra mulher, que tomava conta de sua correspondência, de seus negócios pessoais, de adiantamento de royalties e empréstimos para as necessidades da família, angariava intelectuais e literatos para as resenhas críticas e para divulgação da obra de Joyce e, acima de tudo, foi responsável pela publicação do principal livro do irlandês, Ulysses. Trata-se da senhora Sylvia Beach.
É possível afirmar que sem Sylvia Beach, que escrevera apenas um livro de memórias ao longa da vida, a história da literatura do século XX seria outra, não só por causa da publicação de Ulysses, mas também pelo número significativo de associações criativas entre a literatura francesa e anglo-americana a que ela e sua companheira, Adrianne Monnier, fomentaram em suas livrarias na rue de l'Odeon em Paris do entre-guerras.
Nascida nos Estados Unidos, filha do pastor presbiteriano Sylvester Beach, Sylvia emigrou para Europa, vindo a fundar a célebre livraria Shakespeare & Company em Paris. O nome sobrevive nas proximidades do marco zero da capital francesa, nomeando, agora, a antiga livraria Mistral, de George Whitman. 
Sylvia Beach viu sua mãe suicidar-se em uma visita a Paris e manteve a informação sobre a razão de sua morte em segredo, a fim de preservar sua progenitora dos julgamentos da família; sua companheira, Adrianne Monnier, também tirou a própria vida e foi tratada com a mesma dignidade por Sylvia; um dos seus melhores amigos, Ernest Hemingway, também foi um suicida. 
Durante a ocupação nazista, um oficial alemão demandou, na Shakespeare & Company, que lhe fosse entregue o livro Finnegans Wake. Sylvia disse que a obra não estava a venda e que era seu único exemplar. O oficial disse que voltaria mais tarde, não só para o livro de Joyce, mas para todas as obras nas prateleiras. Com ajuda de sua assistente e de Adrianne, Sylvia encaixotou toda a livraria, escondendo o acervo no quarto andar do prédio que abrigava o estabelecimento. Foi o fim da história da Shakespeare & Company, que não mais reabriu. O oficial nazista ficou sem seu Finnegans Wake
Por seu legado como pessoa e pelo encorajamento às letras, homenageamos Sylvia Beach, nesta data que seria seu centésimo vigésimo sétimo aniversário.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Um ano de poucas palavras

Lembro-me do dia em que percebi que as coisas não estavam mais no lugar certo. Era para ser, aliás, uma ocasião especial, pois íamos a um concerto de uma das bandas que mais gosto. Vê-los tocar, para mim, é quase como ver os Beatles. Quer dizer, claro que gosto mais dos Beatles e de suas músicas, mas acompanho a outra banda desde adolescente, aprendi a executar várias canções, mesmo que elas durassem 20 minutos, e elas significam muito para mim.
Eu assisti o show e me diverti, mas quis ir embora. Mesmo diante dos Beatles da pós-modernidade, eu quis ir embora para casa. Na época, coloquei a culpa em uma das nossas companhias. Hoje, não tenho dúvidas de que a culpa era minha mesmo. Eu é que estava estragado.
Então, decidi crer que estávamos vivenciando a falência da civilização ocidental e que a popularização do MMA seria um sinal claro disso: a pancadaria tornou-se parte do cotidiano e do entretenimento das pessoas. 
No último fim de semana, recebemos a visita de um sujeito incrível, com sensibilidade ímpar, que fez observar que não é a falência da civilização, pois a civilização é assim mesmo. É assim mesmo, oras. Não há falência da civilização, mas falência da alma, o total descolamento entre um sujeito e sua sensibilidade. "Comigo me desavim", diria Sá de Miranda. 
Por isso, não escrevo mais. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um fio de cabelo

Sempre que encontro cabelo na comida, não me preocupo muito. Normalmente, trata-se de um dos meus próprios cabelos caídos. Assim, é melhor não fazer qualquer furdunço, pois é culpa exclusiva da vítima. Não foi o caso, entretanto. O anúncio foi feito ao gerente de forma polida:

"Não vou deixar de ser cliente, mas é bom que se registre. Olha aqui, o cabelo". 
"Eu agradeço. Todos os funcionários usam a toquinha, mas, com os clientes passando pela pista, sempre pode acontecer de cair alguma coisa. Quer se servir de novo?"
"Não, não, estou satisfeita". 
"Pegue uma sobremesa. Não quer?"
"Não, não, obrigada". 

Saímos em direção à rua, sem tomar café. Caminhamos em direção ao Largo São Francisco, tendo de esperar o semáforo para conseguirmos atravessar. Interessante que, agora, os semáforos para pedestres apenas piscam o verde e já voltam a sinalizar em vermelho sem dar tempo de chegar ao outro lado da rua, fazendo todo mundo sair correndo da frente dos carros. Tudo em nome do aumento do bem estar. 
Caminhamos margeando a Faculdade de Direito pela rua Cristóvão Colombo, observando como a cidade estava triste e sem cores, a ponto de ficar ela própria sem sentido. O assunto foi se dissipando conforme nos aproximávamos da Riachuelo. Ao atravessá-la, já no meio do caminho entre as duas calçadas, fazia uma imitação do Mr. Sheffield no The Nanny quando um estrondo nos fez voltar a cabeça. Só fui entender do que se tratava quando vi a moto e a pessoa que a guiava voando em minha direção. Fiquei parado entre a rua e o meio-fio, sem reação. Pensei que a motocicleta iria me acertar e julguei que poderia pará-la com as mãos - uma ideia estúpida que, felizmente, não levei a efeito. 
A roda traseira parou a um fio de cabelo dos meus pés. Estávamos todos bem, exceto pelo susto e pelo motociclista que levou alguns segundos até retomar a consciência. Caminhei até ele, como se procurasse alguma coisa que não sei bem o que era e, então, puxei o celular para discar 192. O policial que estava a postos em frente ao Ministério Público veio correndo em nossa direção e chamou a ajuda por rádio, informando que era sério. 
Enquanto prestava atenção aos procedimentos, pensei que, por muito pouco, não fora um acidente maior. Por muito pouco, não nos envolvemos nele. Se tivéssemos comido 50 gramas a menos, talvez saíssemos do restaurante uma fração de segundo antes do que, de fato, deixamos, sem encontrar um fio de cabelo no prato e outro entre meus pés e a moto. 
Ainda perto do acidentado, ouvi-o balbuciar: "por que ele fez isso?". Eis uma pergunta que não pude responder. Coloquei a culpa na cidade, que anda muito triste e sem sentido.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A primeira

Quando era menino, jogava futebol e, parece, era um bom goleiro. Sofria, então, do mesmo problema que sofro hoje: lembro-me que, em determinados dias, aconteciam defesas incríveis, eu pulava de um lado para o outro e não passava nada; em outra ocasiões, eu estava inseguro e um frango ou outro era esperado. Mas, em um bom dia, eu era um bom goleiro.
Para provar, tenho uma medalha guardada no fundo da primeira gaveta do guarda-roupa em Ribeirão Preto. Ela está dentro de uma embalagem azul que abrigou um relógio que ganhei naquela época.
Acho que o ano era 1996 e fui convocado pela esquadra da 4ª série A para pegar no gol no campeonato interclasse. Se não me falha a memória, éramos o segundo time da sala, o time "das sobras". Mas era um bom time. Claro que não teríamos chance contra a temida 4ª B: havia repetentes mais velhos, enormes e violentos. Como se isso não bastasse, jogavam no time infantil do Botafogo de Ribeirão, o que reduzia os confrontos com os demais times a mera formalidade até que chegassem ao título. 
De algum modo, nós chegamos à final do campeonato. Como não poderia deixar de ser, a partida seria  a contra a 4ª B. No entanto, para surpresa geral, os meninos que jogavam no Botafogo não apareceram na final, justamente porque tinham um jogo pelo pantera. Por essa razão, tínhamos uma chance de levar o caneco. Como goleiro, eu poderia estragar tudo - e quase o fiz, de fato. Primeiro chute a gol e não sei por quê diabos caí para o lado contrário da bola, jurando que ela havia desviado em alguma coisa.

"A bola desviou!" - bradei.
"Não começa, não, hein, goleiro!" - foi a bronca.

Tremendo como uma vara verde, fui me recompondo ao longo do jogo. Fiquei confiante de vez ao defender um penalti no final do primeiro tempo. Depois disso, a coisa entrou nos eixos. Havia uma série de cobranças diretas para o gol, como se fossem lances-livres do basquete. Aparentemente, era - ou é - alguma regra do futebol de quadra. Defendi todos! A certa altura, o cobrador oficial da 4ª B olhou bem para mim, após uma dessas defesas, e vociferou:

"Goleiro filho da puta".

Tive certeza, então, que estava indo bem.
Vencemos o jogo e o campeonato. Nunca vou esquecer aquela sensação muito gostosa e particular das competições esportivas. Tudo continuava igual, no dia seguinte teríamos aula, tínhamos de ir para casa fazer a lição, mas, naquele momento, estávamos felizes, batemos a 4ª B e nada tiraria aquilo de nós.
Aguardei meus pais chegarem do trabalho com a medalhinha no peito, todo orgulhoso. Para comemorar, fomos à lanchonete "Da Hora" que ficava do lado de casa. Meu pai tirou fotos minhas com o uniforme de goleiro e a medalha. Ainda hoje, remexo a gaveta para ver de novo aquela medalha.
Esta foi minha única conquista esportiva, embora eu sempre tenha praticado esportes. Como dito, o problema sempre foi a confiança e eu não me arrisquei mais em competições. No ano seguinte a este, fiz um teste para o time da escola e, como era um teste, com pessoas olhando, não consegui segurar nada e recebi a sentença:

"É, baixim... assim não vai dar".

Foi o fim da minha carreira de atleta. Parece que é verdade ser o menino o pai do homem, mas na exata medida em que o homem é o produto das potencialidades esquecidas do menino. Ou que o homem é o menino amedrontado.
Enfim, julguei que aquele torneio interclasse seria, para o resto da minha vida, o único sabor de vitória esportiva. Seria isso mesmo se, agora, depois de velho, não tivesse voltado ao mundo das competições. Meu sonho de menino era correr de kart e, hoje, posso fazer isso. Desde o início de 2012, eu e meu companheiro de equipe sueco passamos a correr uma vez por mês, pelo menos. Competimos em baterias abertas de outros kartistas amadores de forma honesta, sem violentar os demais e, com isso, fomos melhorando. Chegamos a fazer uma dobradinha, com o sueco na frente e eu em segundo, houve alguns pódiuns para um e para outro e a briga sempre foi muito acirrada. Até que chegou o dia 30 de agosto de 2013.
Tínhamos uma bateria agendada para 21h30 no Kartódromo da Granja Viana. Em razão de uma manifestação no Rodoanel, levamos duas horas e meia para chegar em Cotia e, claro, perdemos a bateria. Inscrevemo-nos em outra, às 23h30.
Sentei no kart ansioso como de costume. Olhei ao redor e me julguei mais lento que metade do grid. Lembrando-me de que estava ali apenas para brincar e me divertir, parti para qualificação. Acho que fiz o quarto melhor tempo, atrás do sueco que se classificou em terceiro. No entanto, dois pilotos mais experientes,  por qualquer razão que desconheço, optaram por sair do fundo pelotão, o que me fez largar na segunda colocação. Sueco na pole-position, eu ao seu lado na primeira fila. Quando alinhamos, estava um pouco aflito, lembrando de outras ocasiões em que fui derrotado por ele mesmo estando mais rápido na pista. Tinha, naquele dia, uma boa chance de vencer, mas, para isso, teria de superar meu grande amigo. Como fazer isso? 
Dada a largada, mesmo saindo pelo lado de fora e tendo de percorrer uma trajetória maior até à primeira curva, superei o pole-position e abri uma considerável vantagem na primeira volta. Contornar a primeira curva na frente é uma sensação bastante interessante, que te faz querer forçar tudo para ir mais e mais rápido. E assim fui, da primeira à última volta, procurando intensamente melhorar os tempos de volta.
Senti a liderança ameaçada ao longo de toda corrida. Havia muitos retardatários e, sempre que olhava para trás, havia algum kart próximo, de modo que não conseguia identificar se aquele era ou não o segundo colocado. Apenas quando recebi impressa a classificação final, notei que terminei a prova mais de vinte segundos à frente dos demais e que tinha sido dominante naquela noite. Os pilotos que saíram do fundo do grid chegaram em terceiro e quarto, virando tempos parecidos com os meus. 
Foi a primeira vitória no kartismo amador. Vale alguma coisa? Não, claro que não; significa que sou bom piloto? Muito menos! Mas tem um gostinho tão bom quanto um pint de Old Speckled e posso, com isso, beirando os trinta anos, voltar à meninice das brincadeiras e dos sonhos que se tornam verdade.  

sábado, 24 de agosto de 2013

Na presença de inimigos

Dia desses, dirigia o carro saindo de um trabalho e rumando a outro, sentindo-me mal porque estava perdendo tempo não trabalhando enquanto dirigia. É uma situação comum na grande cidade, a pessoa parada no trânsito, outros motoristas buzinam e a gente não entende a razão, os ruídos em volta incomodam e até a mocinha que fala no rádio passa a ser um pé. Eu não entendo, mas todas as moças da rádio hoje tem a mesma voz. Olhei, então, ao redor e me vi naquela bolha de aço e vidro. Em minha companhia, apenas uma pasta, a sacolinha com lixo transbordando pendurada na alavanca de câmbio e os demais bancos vazios. Ah, sim, e a voz da moça do rádio que me tirava a concentração anunciando que havia congestionamento recorde em todos os lugares por onde passam carros no mundo. E o resto do mundo, lá fora. 
Pensei, então, nas ordens mendicantes e na interessante concepção de "cela interior", a ideia de que os monges devem estar no ambiente urbano - no "burburinho da cidade" -, convivendo com todos e com todos os problemas, sem abrir mão, no entanto, da oração. Assim, o isolamento e contemplação não decorreriam do afastamento das questões mundanas, mas da concentração em deus, a despeito dos convites das distrações citadinas. 
Dentro do automóvel - uma cela móvel -, dirigia enquanto não trabalhava. Aliás, havia já realizado um trabalho que não queria ter realizado e rumava para outro que queria menos. Enquanto trabalhava, não podia ler, estudar ou escrever, logo, não podia desenvolver nada. Ainda, o trânsito, maldito, atravancando o caminho, o motoqueiro sem juízo que quase cai sobre o carro, o motorista sem educação que acha que tem mais direito de passar que os outros. 
Profundo descontentamento. Era isso. Profundo descontentamento com a vida. Se me perguntarem o que sinto e eu disser algo diferente de ansiedade e cansaço estou mentindo. O tempo todo, ansiedade, aquela que turva a visão. 
É um velho conhecido este estado de espírito, ainda antes que o relógio bata meio dia. É terrível se perceber assim e ali no carro, impaciente, olhando em volta, buscando uma esperança de que, em algum momento, os veículos à minha frente se moveriam, lembrei que não precisava dirigir antes e que talvez fosse mais feliz naquele tempo em que circulava de ônibus ou metrô. Ou não, na verdade, não era o carro, mas o emprego novo. Sim, o emprego novo, é ele que me deixa assim. Mas, talvez o emprego não incomodasse se não tivesse o doutorado. Quem sabe tenha a ver com o doutorado, a gente se sente sempre atrasado quando tem coisa para escrever. Mas, espera aí: o doutorado só começa no próximo ano. Então só pode ser o escritório; é isso mesmo, é muita responsabilidade para uma pessoa só. E estes protestos também. Colocaram fogo na frente de casa e eu tive que parar de ler um livro importante para a tese, agora está tudo atrasado. É certo que não vou dar conta, não vou dar conta. Às vezes, tenho vontade de fumar. 
Enquanto aquela corrente de pensamentos fluía, provocando até uma assimetria no tempo verbal do texto escrito tanto tempo depois, senti inveja dos que portam consigo a cela interior, que impede que os influxos externos os tirem da rota de suas convicções. Eles sabem que o problema é um só e a solução está na cela. 
A moça do rádio - ou outra com a mesma voz - continuava a anunciar que crescia em trezentos e setenta e dois por cento a incidência do crime "entradinha de funerária" e que o monotrilho nunca ficará pronto. Desliguei o rádio e pus-me pensar no porquê de um cigarro. 

sábado, 3 de agosto de 2013

Conflitos

Foi há aproximadamente dois anos que elas começaram a habitar minhas noites. Cenas de guerra, guerrilha urbana, fugas assustadoras que me fazem, vez ou outra, acordar sobressaltado no meio da madrugada. 
No início, parecia fácil entender de onde vinham tais pesadelos, pois meu subconsciente fornecia outras pistas para entender a inquietude. Frequentemente, durante o sono, eu era chamado a provar minha lealdade e firmeza de caráter ao ser atirado a situações embaraçosas em que pessoas conhecidas procuravam me desestabilizar com artimanhas, às vezes, vulgares. 
De fato, aquela era uma época em que meu ânimo se dividia entre o "faça" e o "não faça", o "espere" e o "não espere" e o cabo de guerra entre diferentes inclinações explicaria o conflito no meu sono. Entretanto, o realismo das imagens nunca consegui explicar. Não gosto de filme de guerra, não estudo estratégias militares, nunca tive uma especial inclinação para a guerrilha, mas, ainda assim, aparentemente, meu cérebro é capaz de recriar quase ex nihilo os mais complexos campos de batalha. Já estive em uma cidade medieval prestes a ser invadida; ajudei a esconder um guerrilheiro que, suponho, era vietinamita, na zona rural de Ribeirão Preto -  o pior é que nos acharam; vi de perto enorme troca de tiros entre duas infantarias sem encontrar abrigo seguro. Um dos meus cenários favoritos, no entanto, apareceu há poucos dias: era a Guerra Civil espanhola e, no meio de uma batalha, tive a chance de trocar algumas palavras com Ernest Hemingway. Aviões franquistas aproximavam-se da vila onde estávamos e eu deveria confrontá-los no ar. Obviamente, estava apavorado e Hemingway me aconselhou a ficar em solo, realizando outras tarefas e, caso a vila chegasse a ser bombardeada, deveria providenciar para que as pessoas fossem salvas. 
Acordei sentindo-me como uma personagem de Woody Allen. Cheguei mesmo a compor uma cena, em que o próprio cineasta diria, aflito, com as mãos a frente do corpo em direção ao interlocutor: 

"I had this crazy dream, I was in Spain and it was the Civil War. I met Hemingway and he told me not to get on the plane because I was too frightened. I'm a mess, I don't know what to do. I have to tell Nicky". 

A razão de encontrar Hemingway é fácil de entender. Tenho tido muito contato com o autor há algum tempo. Os conflitos refletidos nos sonhos de outrora diziam respeito aos temores em relação à convivência com aquilo que não podia controlar porque só dizia respeito aos outros;  o conflito, hoje, está ligado com aquilo que não quero fazer, mas não nego realizar, aquilo que preciso fazer, ainda que sem acreditar e o consequente afastamento das intuições. Hemingway fez suas escolhas: abandonou uma carreira porque queria vivenciar a literatura. Sobreviveu com menos de cinco dólares por dia em Paris para se tornar escritor. Relatou, anos depois, que sentir fome o ajudava no trabalho e a compreender as obras de artistas que, como ele, passaram por privações materiais. Hemingway fez suas escolhas, pagou o preço por elas e recebeu, com isso, um prêmio Nobel. Talvez, ao ir ter com ele enquanto dormia, eu esperasse ter indicações sobre as escolhas que não saiba fazer - ou, pelo menos, se preciso fazê-las ou não. 
Sonhos, bons ou ruins, parecem ser uma maneira interessante de contato consigo mesmo. Terríveis, entretanto, quando eles nos assustam mais quando deles não lembramos. 

"Você teve algum pesadelo esta noite?" 
"Não, não que eu me lembre. Por que?" 
"Você chorou muito enquanto dormia". 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Adeus, dentinhos

_ Bom isso é que podemos fazer. No resto, vai ficar tudo bem, mas um dia, quando você tiver lá os seus trinta anos, vai ter que colocar implantes. Não tem outra coisa a fazer.

Foi assim que, há muitos anos atrás, quando os trinta anos pareciam distantes, o ortodontista me avisou que não tinha todos os dentes na boca - ou melhor, que os tinha, mas que nem todos durariam por uma vida. Em algum momento, teria que colocar dentes artificiais para continuar mastigando apropriadamente. 
Até há uma semana, os dentinhos de leite estavam aqui. Pequeninos, bem gastos, já desproporcionais a uma boca que cresceu. 
A possibilidade de alguém perfurar meu osso para inserir o implante nunca me agradou e temi por anos o dia da cirurgia. Mas era inevitável e, em uma manhã, aconteceu. Ao deitar na cadeira do cirurgião, tive a sensação de que algo importante estava acontecendo, algo que não poderia ser desfeito e que, em alguma medida, mudaria o modo de olhar para mim mesmo.
Aqueles dentinhos foram feitos para durarem, sei lá, seis, sete anos. Duraram bem mais que isso e, com os trinta chegando, chegava também a hora de substituí-los. Mais de 15 anos esperando a temida cirurgia; agora, não tenho mais dentes de leite. Talvez deva me tornar um homenzinho. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Compostura

Com peso, potência e técnica equivalentes, ganha quem tem a cabeça no lugar.

Era a segunda bateria do dia e largar em primeiro era um bom sinal para a corrida. Aquela rápida olhada em volta, um breve aceno entre companheiros de equipe para comunicar as qualidades do kart e, em breve partiríamos. 
A largada foi confortável, nem dei os tradicionais "pulinhos" para dar impulso. Tinha certeza de que sairia da primeira chincane liderando o pelotão. E foi assim. 
Aproximando-nos, pela primeira vez, do cotovelo, não via ninguém. Por causa da proximidade entre os karts, achei por bem fazer uma tomada mais por dentro, sem tangenciar completamente. Daquele modo, mostraria para quem viesse atrás - especificamente, ao meu amigo\companheiro de equipe - de que estava ali e queria continuar ali. Na freada, julguei estar confortável: era a primeira volta, ninguém largara melhor que eu e ninguém estaria disposto a arriscar tudo ali no cotovelo, especialmente tendo posicionado o kart na parte interna da pista. 
Foi uma grande surpresa avistá-lo por dentro na tomada, freando profundamente e perdendo levemente a tomada. Minha única reação foi frear ainda mais, buscando sair mais "justo" do grampo, tracionar melhor  e devolver a ultrapassagem na subida. 
O plano, elaborado em uma fração de segundo, foi por água abaixo quando senti a traseira escapando sem volta. Não sei bem o que houve - tive quase certeza de ter sido tocado, mas é possível que, no susto, tenha pisado demais nos freios ainda frios, tenha travado as rodas traseiras e virado sozinho. Tomei batidas de tudo quanto foi lado, agradeci por estar inteiro, endireitei o kart na pista e fiz a subida sem avistar ninguém a frente, não em razão de liderar, mas por estar em último, muito atrás do penúltimo. 
Enquanto o kart subia pela reta, eu calculava a distância para os demais e se valia a pena persegui-los ou parar no boxe para assistir o resto da corrida tomando um Gatorade. A frustração era imensa. Mais, perder a primeira disputa de freada acaba com a confiança.
Continuei, afinal, cada 20 minutos na pista custa uma pequena fortuna - e eles não dão desconto pelo abandono. No fim das contas, fiz uma prova muito boa, chegando em segundo e descontando boa parte da vantagem conquistada pelo meu companheiro de equipe após a rodada. 
Ótimo resultado final para nós! Uma dobradinha no território em que só correm caras com trinta quilos a menos que nós e que treinam semanalmente - luxo que nós não temos. Mas, ficou uma pontinha de decepção por não saber o que aconteceria sem a rodada. 

_ Você não me passaria de jeito nenhum, sentenciou meu amigo. 

O tom seco da afirmação foi tão surpreendente quanto a ultrapassagem naquela primeira volta. Ali, estava contida uma lição difícil de aprender: meu amigo - meu melhor amigo - faria tudo o que fosse preciso me vencer. Enquanto estou sentado aqui, escrevendo, julgo que estou em boa forma em termos de pilotagem. Mas, na pista, em determinada situação em que as coisas não estiverem saindo bem para mim, não vou me sentir desta mesma forma e, claro, não vou conseguir ir para frente - eis aí o aspecto mais difícil de qualquer competição. 
Pensei em inúmeras explicações para nossa diferença de abordagem, passando, como não poderia deixar de ser, pela origem nórdica dele, a minha origem latina. Mas o fato é que ter a cabeça no lugar determina se se vai perder ou vencer. É assim na pista, talvez seja assim na vida. A ideia, no fundo, é muito simples: manter a cabeça no lugar e não deixar o estresse nos desconectar de nossa sensibilidade. Endurecer, e endurecer na medida e na hora certas é um desafio para vida e para a pista.  
E se alguém tiver uma dose de autoconfiança para emprestar, encaminhe para a sede paulistana de nosso blog. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cotidiano

Tratava-se de fazer café. Coisa simples, talvez a tarefa que mais execute ao longo da semana. São, pelo menos, três doses diárias. 
Posicionei o suporte com o coador sobre o recipiente enquanto a água era aquecida. O pó foi ali depositado na medida correta. Para aquecer a garrafa térmica e torná-la apta para receber a bebida, despejei nela um pouco de água quente. Iniciei o processo de passar a água pelo pó e a mistura, pelo filtro. O aroma tomou o ambiente, aumentando a vontade de tomar a bebida quente. Só depois de tudo pronto é que pude atentar que havia me esquecido de tirar a água quente da garrafa, o que diluiu o café, tornando-o intragável. Claro que, em certas culturas primitivas, toma-se café diluído, quase sem gosto. No entanto, aquilo é menos uma bebida que água suja.
Nova tentativa, nova água aquecida, tudo posicionado, vamos nós de novo. Mais uma vez, passei a despejar a água sobre o pó quando, a certa altura, julguei já ter o suficiente para uma quantidade adequada. Aguardei com ansiedade até que toda a água passasse pelo filtro e retirei o suporte para tampar a garrafa. Fiquei surpreso, entretanto, ao ver que quase não havia café no fundo do recipiente: apenas um fundinho de três ou quatro dedos, o que dá para um caneca, nada mais. Isso causou grande estranheza, já que quase toda a água aquecida foi para o coador. A previsão era que, ao final, pelo menos um litro de café tivesse sido produzido.
Sem entender para onde foi aquela água, julguei estar cansado e que a falta de tempo de sono faz essas coisas com a cabeça da gente. Entendi, por outro lado, o quanto é difícil estar ao meu lado.