sábado, 27 de junho de 2009

O INÍCIO

Vou escrever baseado na memória e não recorrer às ferramentas atuais disponíveis na internet que tiram um pouco (ou toda) a graça das nossas lembranças. Mais tarde comento sobre elas.
Recordo que já em 72 algumas corridas do mundial passavam na TV.
Não todas.
Mas, assisti emocionado a vitória do Emersão em Monza neste mesmo ano.
Como o Jackie Stewart queimou a largada o campeonato estava praticamente ganho. Se não me engano, mesmo com a vitória de Stwart, bastava um quarto lugar do Emersão que o título era “nosso”.
Mas, o Emerson assumiu a ponta e não largou mais. Nas voltas finais o pai dele (o velho barão) que transmitia a F1 para a rádio Jovem Pan, não conseguiu continuar a transmissão pela emoção que sentia, e passou para o comentarista a função de terminar. Foi lindo ver o carro (na minha opinião) mais bonito de todos os tempos cruzar a linha com um brasileiro sendo campeão de F1. Valer dizer que eu assistia a corrida pela TV, mas ouvia a narração pela Jovem Pan. O Wilsão,o tal velho barão, sabia tudo de automobilismo e tinha trânsito pelo ambiente da F1. Então, suas transmissões eram ricas em informações.
As transmissões pela TV eram bem diferentes.
Vários pontos cegos dos circuitos, uma atenção excessiva para quem liderava, perdendo pegas lá atrás e quase nada de som ambiente. Em Nurburgring então nem se fala.
Para encerrar, e por falar em pais. O véio Mero, meu pai Homero, não entendia e não gostava da F1.
Então, vivia me atazanando. Eu, todo esquentadinho, comprava briga. Houve uma época em que o Emersão tornou-se meio burocrático e, além disso, seu carro não ajudava e ele vivia quebrando. Acho que a Lótus em 1973 e a McLaren de 1975. Eu ficava sozinho em frente à TV xingando o Emersão. Meu pai pegava o gancho. Passava pela sala e repetia à exaustão e com voz empostada: “o Fintinpaldi já quebrou?”
Era assim que ele chamava o Emerson Fittipaldi. Imaginem eu, puto da vida, com o “Fintinpaldi” e ainda agüentar o véio Mero tripudiando........
Depois eu volto

Não é fácil, não é fácil

Acabo de ler no Grande Prêmio uma breve entrevista com a piloto brasileira Bia Figueiredo, que compete nos Estados Unidos, na categoria Indy Lights.
Ana Beatriz, como é mais conhecida nos EUA, sofreu um forte acidente em Indianápolis, há um mês atrás. Nada de muito grave com a piloto, que teve um corte no queixo e levou alguns pontos por isso. Mas seu carro teve diagnóstico mais sério: perda total, o que inviabilizou sua participação na corrida de Milwaukee.
Uma vez que o carro não poderia ser consertado, ela teve de correr para o Brasil com seu empresário para levantar fundos para um novo carro. Isso ocorre porque a responsabilidade por batidas e danos no carro correm por conta da piloto, como ela relata na entrevista.
Depois da etapa de Milwaukee Ana Beatriz voltou a competir em Iowa, vencendo com o carro novo. Acho que toda esse contexto depois da batida em Indianápolis valorizam muito o triunfo em Iowa. Devia haver muita pressão sobre ela, que mesmo assim se saiu muito bem. Vamos esperar que essa vitória possa colocá-la, definitivamente, na briga pelo campeonato.
Deixo aqui o link para o vídeo da batida e vai, abaixo, o vídeo da vitória em Iowa, para preferir os triunfos às pancadas.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

Fangio

Dia 24 de junho, anteontem, portanto, completaria 98 anos o multicampeão de Fórmula-1 Juan Manoel Fangio.
Como é cediço, Fangio estabeleceu, na década de 1950, a marca de cinco títulos mundiais, que só foi superada, mais de 50 anos depois, por Michael Schumacher. Apresentações de Fangio são dispensáveis; foi, certamente, um dos maiores, senão o maior, gênio do esporte. Logo abaixo, a prova disso. Não tenho certeza quanto ao carro nem quanto à pista, mas parece ser Fangio pilotando uma Maserati em Fiorano. Seja onde for, dá para ver que a vida não era fácil: asfalto detonado, mato para tudo quanto era lado e eu já tive uma bicicleta cuja espessura do pneu era o dobro dos dianteiros deste carro.
Mas nem tudo são espinhos: os pneus estreitos não possibilitavam que se fizesse curvas rápidas como se fazem atualmente, de modo que as forças laterais que empurravam o piloto eram bem menores das que operam hoje. Lembro de uma entrevista de Stirling Moss em que ele relatava que tais forças não passavam de 1.9G, se não estou enganado. Se estiver, me corrijam.
Como essas forças laterais sendo menores, o preparo físico exigido para o piloto era, igualmente, menor. Daí, Fangio, assim como outros pilotos da época, ser um pouco mais corpulento, sem sofrer perda de desempenho com isso.
Aí vai o vídeo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

LEMBRANÇAS

Com relação ao “click”.

Estava em casa, em sampa e ouço pela TV que um tal de Emerson Fittipaldi havia vencido uma corrida de F-1 em Watkins Glen, nos Estados Unidos em 1970.

Sabia que o Emersão corria na Europa, que era respeitado como piloto e que já pilotava por uma das maiores equipes da F1, a Lótus. Mas, como as imagens de corridas de F1 eram raras eu não o acompanhava de perto.

Daí vem a notícia de sua vitória. Imagens nem pensar. A TV ainda era movida a lenha e preto e branco. Ou branco e preto, como queiram. Algumas notícias vinham acompanhadas de imagens gravadas, mas não era o caso. O companheiro dele Jochen Rindt, que seria o campeão póstumo naquele ano (primeiro e único, até agora), havia morrido e ele assumira o posto de piloto número um.

No outro dia, no jornal impresso, mais notícias e à noite imagens da corrida.

Então, eu comecei a me interessar verdadeiramente pela F1.

E, o Brasil também. Aliás, o Emersão era uma figura: cabelos compridos (como tinha que ser na época), costeletas enormes, sorriso simpático e o apelido de rato. Tudo bem, ele lembrava um ratinho mesmo.....

O Emersão foi o cicerone dos fãs da F1. Dava intermináveis entrevistas explicando que os motores dos carros não eram equipados com carburador. Também não tinham velocímetro!!!

Como pode?

Os caras correndo tudo aquilo e sem saber a quanto?

Fora pneu sem câmara e carecas. Uma loucura.

Mas, era assim.

Daqui a pouco a gente continua...

domingo, 21 de junho de 2009

"Like a flash you could miss him going by"


Ainda em clima de George Harrison, autor do gracioso verso que dá nome ao post, vamos à fantástica vitória de Vettel hoje em Silverstone.
Aliás, não há verso melhor para ilustrar o que houve na GP inglês. Vettel passou voando pela antiga base aérea, e quase não nos deu oportunidade de apreciar sua atuação.
Não há muito o que dizer. Por estar mais leve, pensei que Barrichello pudesse largar melhor ou pelo menos apertar no começo da corrida, pelo menos para dar uma emoção. Mas o conjunto Vettel-Red Bull estava absolutamente imbatível, abrindo um 1 segundo por volta na primeira parte da corrida. É demais para quem estava mais pesado. Seria demais ainda que estivesse mais leve! E aqueles três décimo e pouco da qualificação ficam ainda mais impressionantes considerando o quão mais pesado que ele estava em relação aos outros.
No ritmo em que estavam andando os Touros Vermelhos, já era até esperada a dobradinha. Não se pode colocar a culpa da perda da segunda colocação em Barrichello, que fez uma corrida bastante boa, guardando sempre uma distância razoável em relação ao Button.
O líder do campeonato fez uma corrida discreta, mas parece que seu equipamento não oferecia possibilidades de chegar muito mais a frente. No meio da corrida reclamou que o carro saía de traseira nas curvas lentas, de frente nas curvas rápidas e que batia muito no chão na Copse.
Destaque também para Felipe Massa, saindo de décimo primeiro para chegar em quarto, com uma corrida sólida e madura, aproveitando de maneira perfeita a longa primeira perna de corrida. Desde o ano passado, vem consolidando a imagem de ótimo piloto, e acho que esta temporada andando com um carro "meia-boca" vai ser bastante útil para que ele possa se desenvolver ainda mais.

Para encerrar: alguém entendeu a batida entre Bourdais e Kovalainen? Será que a hipótese do sócio oficial de que o pneu do finlandês já estava furado procede?

Ah, e parece que o tio Bernie já está fazendo a sutura no ferimento aberto pelo racha (poético, não?).

sexta-feira, 19 de junho de 2009

It's the end of the world as we know it (and I don't feel that fine)


Quando criança, brincar de "vamos ver quem chega primeiro", "vamos ver quem corre mais rápido", é algo absolutamente corriqueiro.
Os meninos e meninas crescem, e muitas vezes não mudam de brincadeira: mudam apenas o brinquedo.
Quer dizer, se na infância contávamos apenas com nossas pernas para irmos o mais rápido que podíamos, conforme crescemos, passamos a contar com carrinhos de rolemã, autoramas, bicicletas, às vezes só com as mesmas pernas, só que maiores.
Alguns passam a não mais simplesmente brincar, mas fazem de sua vida um sem número de "vamos ver quem chega primeiro", sendo remunerados para tanto. O brinquedo, nesse caso, passa a ser muito mais caro que as rodinhas e a madeira do rolemã, e há necessidade de uma cadeia intrincada de investimentos para que se proporcione à criança crescida a possibilidade de brincar.
Pois bem. Muitas das crianças crescidas, por sua vez, não vão brincar desse jeito mais caro, e contentam-se em assistir a brincadeira dos outros. É o que acontece com quem acompanha as mais diversas categorias do automobilismo, entre elas a Fórmula-1.
Os carros são absurdamente caros, os pilotos recebem milhões, cada equipe conta com fábrica própria e um exército de técnicos, mecânicos, engenheiros, faxineiros, profissionais de todas as espécies. Além, é claro, de orçamentos astronômicos, captados de tudo quanto é lugar, para fazer funcionar tudo essa estrutura.
É claro também que, na lógica do modo de produção capitalista, ninguém põe dinheiro em nada, se não for para receber mais dinheiro de volta. Não deixa de ser assim nessa brincadeira de ver quem chega primeiro.
Na briga entre FOTA x FIA, que me parece mais propriamente uma briga entre FOTA e Max Mosley, não sei quem tem razão. Acho que ambos os lados têm suas razões, ambas sustentáveis. Todavia, uma coisa é certa: há muito tempo a preocupação principal da Fórmula-1 deixou de ser o esporte e passou a ser o negócio. Como bem disse o próprio Max Mosley, uma categoria que conta com participantes para quem o esporte não é um fim, mas um meio para lucrar mais com seus negócios principais, é, certamente, uma categoria instável.
Eu não sei como será o novo campeonato paralelo. Não sei se vai prestar, se vai ter grid cheio, aliás, até as eleições para a presidência da FIA, não podemos dizer nem se ela vai existir. Mas uma coisa é certa: a Ferrari mandou na Fórmula-1 pelo menos ao longo dos últimos 11 anos; perderam o trono e racharam para criar uma nova categoria. Quem se arrisca a dizer como será o regulamento técnico dela, hein? Motores e câmbio padrão, fornecidos pelo italianos, centralinas padrão desenvolvidas pela McLaren... enfim...
Não acho que seja o fim da Fórmula-1. Pergunto: quantas das equipes que abandonaram o barco na última quinta-feira estavam no grid da primeira corrida, em Silverstone, em 1950? Nenhuma delas. A Ferrari só entraria no GP seguinte, em Mônaco. Oras, se criaram uma categoria sem a Ferrari, pode-se, do mesmo modo, continuar a mesma categoria sem a Ferrari.
É claro que não é a mesma situação, o peso da tradição e da história agora falam bastante alto. Além, obviamente, dos investimentos e lucros que a presença da Ferrari traz à Fórmula-1. O problema é que a Ferrari levou quase todo mundo consigo, deixando a Fórmula-1 desacreditada e praticamente sem possibilidades de preencher o grid para o ano que vem. Há notícias de que muitas das equipes que se alistaram para 2010 já estão revendo suas posições e cancelando as respectivas inscrições, em vista da instabilidade atual da categoria.
Creio que os diregentes, mais do que esquecer do esporte em si, privilegiando o negócio, esqueceram-se também daqueles que são a verdadeira razão da existência da categoria, que são seus amantes. Não existiria Fórmula-1 sem audiência, sem pessoas que consomem Fórmula-1, que vão aos autódromos mesmo desembolsando uma grana razoável não recebendo em contrapartida as acamodações proporcionais ao preço, no caso do Brasil.
Seja como for, não sei se faz tanta diferença assim existir ou não Fórmula-1 ou qualquer outra coisa semelhante. Afinal de contas, nós só assistimos para ver quem completa 305 km em menos tempo, como fazemos desde crianças, e esse princípio absoluto do automobilismo - percorrer certa distância, seja ela qual for, no menor tempo possível - é algo completamente imutável.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

24 horas de Le Mans

Ocorreram no último final de semana as tradicionais 24 horas de Le Mans. Tantos anos acompanhando automobilismo e foi a primeira vez que pude ver essa magnífica corrida ao vivo. Isso graças ao canal Speed, que transmitiu trechos de mais ou menos três horas e meia da prova em certos interlavos de tempo.
Destaques: dobradinha da Peugeot, com o modelo 908. O trio vencedor foi formado por Marc Genè, Alexander Wurz e David Brabham, todos nomes conhecidos na Formula-1, especialmente o sobrenome de David. O trio que ficou com o segundo lugar foi composto por Sebastien Bourdais, Stephanè Sarrazin e Franck Montagny; Bourdais, como se sabe, é piloto da Toro Rosso na F-1, e os outros dois também tiveram passagens pela categoria.
Dentre os brasileiros, a equipe de Bruno Senna teve problemas desde as primeiras horas da corrida, devido a um acidente sofrido pelo piloto Stephné Ortelli, que danificou bastante o bólido. A equipe de Senna abandonou a competição durante a madrugada.
Já Jaime Melo Jr., da equipe Risi Competizione, conquistou pela segunda vez as 24 horas, ao lado de Mika Salo e Piere Kaffer. Jaime e seus companheiros competiam na categoria GT2, com a Ferrari F430GT.
O piloto já venceu o campeonato FIA GT (2006) e a American Le Mans Series (2007), ambas na GT2, além, é claro, das duas conquitas em Le Mans. Com um currículo tão expressivo, é uma pena não ouvirmos falar mais sobre ele aqui no Brasil. Talvez seja mais rentável falar mal do Barrichello a falar bem do Jaime Melo.
Para finalizar, devo destacar a minha participação nas 24 horas (?!?!). Bobagens à parte, durante a transmissão da prova pelo Speed, enviei um e-mail para os narradores Sérgio Lago e Roberto Figueroa, que foi lido ao vivo, o que me deixou muito feliz. Fiz uma pergunta questionando se haveria alguma espécie de revezamento para que eles pudessem dormir, ou se, simplesmente, não dormiriam. A pergunta até que se fazia pertinente, já que eles estavam narrando a Le Mans, logo em seguida narrariam a Nationwide Series da Nascar, já emendando com o trecho final das 24 horas, tudo isso fora o que eles já haviam narrado durante o dia (por exemplo, as primeiras três horas de Le Mans) e o que ainda narrariam no dia seguinta, também ao vivo. Haja fôlego, voz e espírito esportivo para aguentar com bom humor! A resposta foi simpática, como sempre.
Ficam aqui, então, meus cumprimentos ao Sérgio Lago e ao Roberto Figueroa, sempre presentes na American Le Mans, e que fizeram algo que eu considerava impossível até algum tempo atrás: tornar a Nascar interessante.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Here comes the (Emer) son

Estava ouvindo algumas músicas dos Beatles ontem e, no meio delas, estava a belíssima Here comes the sun, escrita por George Harrison para o álbum Abbey Road. Lembrei-me, então, deste vídeo que vai aí abaixo, em que George Harrison faz uma homenagem a seu amigo Emerson Fittipaldi, que havia acabado de se recuperar de um gravíssimo acidente nas 500 milhas de Michigan, em 1996. Antes da música, uma olhada no acidente:



A qualidade do vídeo da reportagem acima não está muito boa, mas achei interessante colocar porque tem a entrevista do Emerson saindo do hospital. Como se pode ver, Emerson teve fratura na coluna e um pulmão perfurado. Após esse acidente, ele decidiu encerrar sua carreira como piloto. Fittipaldi contava, na época do acidente, 49 anos de idade, com dois títulos na F-1 (1972 e 1974), 1 título na F-Indy (1989) e duas vitórias nas 500 milhas de Indianápolis (1989 e 1993). É mole ou quer mais?
As 500 milhas de Michigan de 1996 aconteciam logo após o racha entre Cart e IRL. Tinham a intenção de ser uma espécie "substituto", para a Cart, das 500 milhas de Indianápolis, que, na divisão, ficaram com a IRL.
O acidente de Emerson ocorreu logo nas primeiras voltas do GP, e teve uma pequena colaboração de Greg Moore, que, aliás, morreria em um acidente no California Speedway, em 1999.
Esta musiquinha cantada por Harrison foi gravada para um programa do SBT em homenagem a Emerson. O nome do programa era "Gente que brilha", e foi ao ar logo alguns meses depois da recuperação de Fittipaldi.
George Harrison, grande guitarrista dos Beatles, foi grande amigo de Emerson, era apaixonado por automobilismo e presença freqüente nos grandes prêmios de F-1 na Inglaterra. Sua paixão pelas corridas foi expressada em uma bonita canção chamada "Faster", que pode ser vista e ouvida aqui. O clipe mostra belas imagens de corridas da década de 1970 - e reparem que o motorista do carro em que está o George Harrison é o próprio Jackie Stewart.
Para encurtar o papo, aí vai o vídeo. Eu fico emocionado de assistir: bela música, bela homenagem, no contexto de uma bonita amizade entre dois de meus heróis.


terça-feira, 9 de junho de 2009

De novo, de novo...

Mais uma vez, começou a falação a respeito das atuações de Rubens Barrichello na Formula-1. Talvez tenha sido a pior corrida de sua carreira, mas os comentários maldosos irritam. Aliás, é tudo o que se lê sobre automobilismo: Rubens isso, Rubens aquilo; Mosley vai, equipes vêm, equipes vão, Mosley vai... enfim, está chato acompanhar F-1 pós-corridas (com hífen mesmo, para ficar parcial).
O GP da Turquia foi estranho; acho que nunca considerei a possibilidade de voltar a dormir após a primeira volta! Barrichello lá atrás, Vettel colaborando, eu já imaginei que ia acabar naquela ordem mesmo. Mas continuei assistindo e fui vendo a corrida de "recuperação" do Barrichello e imaginei que viria um acidente em breve. Ainda bem que não aconteceu.
Destaco, novamente, a corrida de Webber, desbancando o talentoso Vettel para chegar em segundo; se não fosse o Button ele venceria... 
Button não está perdoando. Rápido, seguro, sem erros. Vai ser campeão, com muitas corridas de antecipação. Não há nada que Rubens possa fazer, pois ainda que houvesse chance, já não iriam deixa-lo reagir. Agora, já entra o interesse da equipe, o que é justo diante da vantagem que o inglês conseguiu abrir.
Eu não gosto de teorias da conspiração, mas um certo André, que comentou este post do Ivan Capelli, parece-me ter ido ao ponto. Aliás, daquele pessoal todo do Grande Prêmio, o que mais gosto é o Capelli, porque é o único que se parece, em suas opiniões, com um jornalista.
Reproduzo o comentário do tal André:

"Capelli,

sua análise está muito bem escrita. Muito melhor do que os textos de muitos pseudo-jornalistas por aí.

Acho o Barrichello um ótimo piloto, mas tenho certeza que lhe falta a força mental para ser campeão.

O RB foi mais rápido que o Button em todos os treinos até a definição da pole na Australia. Aí teve aquela falha na largada (que atribuo ao carro, ele cansou de demonstrar que pode largar bem, como na Espanha e em Monaco) e sei que passa pela cabeça dele que a imprensa eo Brasil vão falar que ele chegou em 2o e tal. Aí desanda a fazer bobagens.

Na Austrália deu sorte e herdou o 2o lugar. Aí foi para a Malasia seco pra descontar e ganhou de presente da equipe a perda de 5 posições no grid por causa da troca do câmbio. Button pole de novo. Ou seja, a cabecinha dele já começou a largar fumaça. Foi uma prova em que a equipe errou duas vezes na estratégia com ele, que podia até ter vencido se tivesse colocado intermediários, e não secos, na primeira troca. Teve que voltar para os boxes em 1 ou 2 voltas, se não me engano.

Ou seja, tomou 2 a 0 com uma certa razão pra se queixar. Aí ele se estrepou de vez. Faz como aquele time que parte pra cima de qualquer jeito e vai levando gol em contra-ataque.

Para concluir, é preciso dar a ele o valor que o próprio Ross Brawn dá. Na Espanha, em Mônaco e até na Turquia, é ele que vai acertando o carro. Na noite de 6a o pessoal pega as informações da telemetria, põe no carro do Button e o inglês dispara.

Isso mina as forças mentais do Barrichello. Tão perto e tão longe do título.

Schumacher foi um tremendo piloto. Os números provam: é o melhor da história. E ele, como ninguém, soube minar o Rubinho (no diminutivo mesmo). O ocorrido na Austria, a prova em que o RB ficou com o carro no cavalete no grid, a falta de gasolina no GP Brasil quando ele ia abrir 8 pontos de vantagem em cima do alemão.

É fácil aniquilar o Rubens: basta alimentar aquela nuvenzinha preta em cima da cabeça dele.

Uma troca de estratégia na Espanha, um jogo de pneus com 2 libras a menos, uma embreagem que dá pau quando ele declara que largando no lado limpo da pista pode passar quem está em segundo. Podem ser coincidências, mas na F1 e no mundo corporativo há várias maneiras de se atingir um objetivo.

O objetivo do Ross Brawn é ganhar os dois títulos e ele está bem a frente dos demais competidores em ambos os campeonatos".


O início

Uma das questões interessantes que intrigam a humanidade é aquela que determina, o inicio da simpatia, ou antipatia, por determinada coisa, evento, ou mesmo pessoas. Ou seja, o que nos leva a gostar de futebol, do basquete e coisas do gênero? Em relação ao futebol lembro quando comecei a gostar e acompanhar. Foi lá em Curitiba em 1964 (péssimo ano para a democracia). Eu estava tomando banho de bacia (não tínhamos chuveiro) e do rádio vinha a narração do eterno Fiori Giglioti. O jogo era Santos e Botafogo de Ribeirão Preto. Pois o locutor gritou gol onze vezes e oito vezes um tal Pelé marcou. O Botafogo da cidade onde nasci não marcou nada. Pronto: eu passei a admirar o futebol, o Santos, e Pelé. Mas, e o automobilismo?
Meu pai nunca se interessou por essa categoria, pelo contrário. Sou o mais velho dos irmãos e não fui influenciado por eles. Buscando na memória lembro-me das revistas que traziam fotos de Ferrari, Ford GT, Porsche e por aí vai, do mundial de Marcas, que era, na época, mais importante que a F-1. Aqueles carros coloridos e com jeitão de aviões caças despertavam minha curiosidade. Na televisão, preto e branco (meninos eu vi!) tínhamos vídeos esparsos e atrasados de corridas na Europa e Estados Unidos.
Eu adorava um programa, não sei em que canal, que mostrava corridas antigas, já para a época, em Indianápolis. Lógico que com destaques para as porradas principalmente aquelas imensas envolvendo trocentos carros. A F-1 estava presente com o Jim Clark (o verdadeiro escocês voador) e um ou outro piloto. Lembro de ter visto uma foto do Graham Hill (o pai do Damon) dentro do carro em Mônaco com uma taça de champã na mão. Parece que depois de um treino...
Então, um acontecimento proporcionou um “click” e eu comecei a procurar tudo e mais um pouco sobre a F-1. 
Depois eu conto..... 

sábado, 6 de junho de 2009

Novo autor

O Formula-1 Literária conta agora com um novo colaborador, que por coincidência é meu pai. Vai ser bom para movimentar isso aqui, já que eu ando muito devagar com as postagens.

sábado, 23 de maio de 2009

Bueno...

O Grande Prêmio estreiou recentemente uma coluna, de cunho satírico, para criticar a transmissão da emissora oficial da Formula 1 para o Brasil.
Não tenho muito o que dizer sobre o texto em si. Não sou crítico literário.
Acho que as transmissões poderiam ser melhores, ter mais tempo de reportagens antes da largada e etc. Mas isso é questão administrativa da emissora. Talvez não compense em termos de audiência, já que, no horário brasileiro, a maioria das corridas passa de manhãzinha. Será que as pessoas acordariam para ver as reportagens? Bom, eu provavelmente acordaria, mas acho que a maior parte do público, não.
A presença do Luciano Burti melhorou bastante os comentários, já que ele é também piloto e entende bastante. Mas, talvez, o problema seja a postura um pouco autoritária do narrador oficial, que está sempre querendo que todos concordem com ele.
De qualquer forma, talvez haja esperança! As transmissões já foram melhores. Separei um pedaço das reportagens pré-corrida do GP do Japão de 1991. Claro que era uma corrida especial, mas fiquei espantado. Reginaldo Leme conversou com todo mundo - todo mundo mesmo - para saber quem eles esperavam da corrida e da decisão do campeonato. Interessante o repórter conversando com o Prost em francês e com o Patrese em italiano. Destaque também para a simpatia do jovem Michael Schumacher, afirmando que não esperava nada da disputa pelo título ("I hope nothing") e que gostaria de vencer a primeira corrida de sua carreira naquele final de semana. Petulância de campeão?
Já que eu estava com a mão no programa de edição, separei também a última volta, a chegada dos pilotos ao parking fechado e o pódium. Mas isso vai ficar para depois.
Aí vai o vídeo das entrevistas.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Não ouça no carro

Sem querer imitar o Flávio Gomes, mas já imitando, aí vai um momento "Rádio Blog", como ele chama lá. Mas é só porque tem muito que ver com correr de carros. 
Embora a música seja um mau exemplo, é divertida e "inspiradora". Chama-se "Steel Tormentor", se não me engano do álbum "The time of the oath", da banda Helloween.
Só não pode ouvir no carro, para evitar besteiras... 


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sessenta e nove anos

O autódromo José Carlos Pace, vulgo autódromo de Interlagos, completou nesta semana (12 de maio) sessenta e nove anos de existência. 
A história do autódromo pode ser lida neste link.
Segue um resumo da corrida de 1975, vencida pelo piloto que dá nome ao autódromo. A narração é de Luciano do Vale, ainda na extinta TV Tupi. 


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Enquanto isto...

Todos estão preocupados com a Brawn: estaria ela favorencendo Button? Barrichello está enraivecido? Vai deixar a Formula-1?!?!

Todos estão esquecendo que a mais vencedora e mais tradicional equipe da Formala-1 está vivendo uma temporada terrível, depois de ter disputado o título até, literalmente, a última curva da temporada passada.

Isso não é nenhum desastre, já que o novo regulamento "zerou" tudo, e todo mundo começou praticamente do nada para este ano.

Mas o progresso conseguido para o GP da Espanha foi muito grande, com Massa tendo chances de chegar até ao pódio. 

Ver o Massa se arrastando para chegar em quinto, lembrou-me muito da corrida de Barcelona em 2001, quando o Mika Hakkinen ia vencer com a McLaren, aliás, bem inferior à Ferrari, e seu carro quebrou na última volta. Ele tentou se arrastar até à linha de chegada, mas não deu mesmo para o finlandês.

A Ferrari tem um certo histórico de problemas com combustível. Posso citar alguns que me lembro de cabeça: Barrichello na Bélgica em 2000; Barrichello no Brasil em 2001 e 2003; o Massa na Malásia este ano, tinha jeitinho de pane seca. E agora o de ontem. A diferença é que na época do Barrichello não passava de desculpa. Com o Massa... bom, todos ouviram no rádio.

Barrichello e o sorriso mais simpático da Formula-1


Não sou torcedor de pilotos brasileiros, Pacheco, como costumam dizer por aí. Mas torço por Rubens Barrichello, desde menino. Quem não torceria depois de Donington 1993? Um pódio garantido e um câmbio (foi câmbio mesmo?) quebrado faltando poucas voltas para o fim. E era apenas sua terceira corrida na Formula-1. Mas torcer pelo Barrichello começou a se tornar difícil com o passar dos anos. Não só porque, nos primeiros tempos, os resultados não vinham com abundância, mas porque todo mundo começou a pegar no pé dele. Virou “Pé de Chinelo”, o que é uma tremenda bobagem.

O problema é que no Brasil não há torcedor de Formula-1. Há poucos. Há, sim, torcedores de futebol adaptados. Quer dizer, o sujeito não entende nada de corridas, mas assiste para ver o brasileiro se dar bem, e não fica satisfeito se o brasileiro não faz o resultado que ele esperava. E, nisso, há o papel da emissora oficial, que às vezes elogia demais e não faz as críticas apropriadas. Se o Nelson Ângelo Piquet diz que não foi ao Q3 por um “pentelho de nada”, é preciso conversar com ele para que ele não repita a tal expressão – que é, na verdade, inofensiva; outras críticas, que poderiam ser mais construtivas, acabam não sendo feitas. E o torcedor adaptado pensa que todo mundo é o novo Ayrton Senna.

E o problema do Barrichello ainda é outro: além dessa questão da emissora oficial, ele próprio promete demais. Se o atacante entra em campo dizendo “vou fazer três gols”, e ao final fez apenas dois, ele está devendo um. E será cobrado.

É exatamente isso o que ocorre com o Barrichello. Ele disse à TV no domingo antecedente à corrida de Barcelona: “vou ser campeão. Por que não seria?”. Certamente seria mais prudente dizer: “vou tentar andar sempre entre os primeiros, vencer, quem sabe, algumas corridas, e a partir daí pensar em vencer o campeonato. Mas é difícil, porque o Jenson está andando muito bem”. Desse modo, fala-se tudo, com prudência, e sem colocar pressão sobre si mesmo.

É claro que estou brincando. Cada um sabe o que fala para a imprensa. Mas eu, como torcedor do Barrichello, gostaria de ter ouvido a segunda versão do depoimento.

Prometendo ser campeão antes de ganhar uma corrida, o Barrichello só está jogando a torcida e a imprensa contra ele. E com isso vem toda a pressão.

Na Espanha ele andou muito bem. Largou de forma arrojada, não deu chances para que o Button se defendesse. Faz um ótimo trabalho até o segundo pit-stop. O problema é que teria que fazer mais um...

Não sei por que parou três vezes. Acho que nunca havia visto uma estratégia para três paradas funcionar bem em Barcelona – e continuo sem ter visto. Mas a Brawn, seus pilotos e engenheiros, haviam calculado e percebido que, precisamente neste ano, daria certo. Fato é que não deu. Se tivesse feito duas paradas, Barrichello provavelmente teria ficado o tempo todo a frente de Button, e com isso teria tido a chance de controlar a corrida. Mas, por qualquer razão, não foi isso o que houve.

(O Norber Haug, diretor esportivo da Mercedes, fornecedora de motores da Brawn GP, disse que acredita ter havido favorecimento da Brawn a Jenson Button. Isso está escrito no blog do Livio Oricchio [http://blog.estadao.com.br/blog/livio/]. A opinião de Haug é importante, mas não deixa de ser uma opinião – e vai entre parênteses).

Eu não quero, e realmente não gosto, de insinuar que tenha havido favorecimento ao Button. Pode ser que tenha havido, mas, deve-se dizer, isso é mérito ou sorte do próprio Button, que fez corridas arrasadoras até aqui. Com 5 x 0 em resultados de corridas a favor do inglês, o também inglês Ross Brawn já deve estar pensando no “melhor para o campeonato”, ainda mais prevendo que pelo menos a Red Bull encoste para brigar pelos primeiros postos. Lembrando que Ross Brawn é o mesmo homem que “pensava no campeonato” na Ferrari. Não quero deixar a entender que ele não goste do Barrichello e o persiga. Não se trata disso. Se fosse assim, ele não teria razões para contratar o Rubens para ser seu piloto. Apenas quero dizer que o Brawn costuma, sim, evitar que seus pilotos desperdicem pontos competindo entre si.

A questão do “inglês na equipe inglesa” eu não vou comentar, pois já ficou batida, e soa como desculpa. Mas basta lembrar os célebres casos Piquet x Mansell, na Williams, e Hamilton x Qualquer Outro na McLaren. E ponto.

Se o Barrichello quer reagir, talvez ele deva se utilizar da tática Mark Webber. “O Vettel é fantástico, o Vettel é o novo Schmacher, o Vettel domina e etc.” O Vettel ficou a corrida toda preso atrás do Massa, e teria chegado ali se não fosse o problema da gasolina no carro do Felipe. Ninguém se lembrou ao longo da corrida toda de procurar o nome Webber na cronometragem oficial (já que a TV não o estava mostrando). E de repente... Webber em terceiro, fungando na traseira de Barrichello, enquanto Vettel continuava atrás da problemática Ferrari de Massa.

É claro que Barcelona não tem pontos de ultrapassagem muito claros. Acho o Vet

tel, sem qualquer ironia, um piloto absolutamente fantástico. Mas o Webber, quietinho, quietinho, quase sumido, sem falar nada de assombroso para a imprensa, sem ameaçar deixar a Formula-1, deu o pulo do gato, e chegando à frente de seu companheiro, ganha confiança e faz com que a equipe confie nele, o que é extremamente importante. É o que Rubens deve fazer.

Acredito que a briga pelo título não tenha terminado. 14 pontos não é uma diferença irreversível. Com o atual sistema de pontos, pode-se ser campeão ganhando 3, 4 corridas. Se em Mônaco, por exemplo, o Button fica sem freio, passa direto na Saint Devote e não completa a corrida, vencendo o Barrichello, temos 4 pontos de diferença; mais duas dobradinhas com o Button em segundo, voilà, estamos empatados.

Mas não adianta ter esperança, nem torcer, se a atitude não mudar. Primeiro andar na frente, depois vencer, e só depois, bem depois, pensar em ser campeão.

Agora, mesmo torcendo pelo Rubens, não tem como torcer contra o Jenson Button: sujeito simpático, que vence e abre aquele sorrisão de “estou feliz para cacete”, e não aquele sorrisinho de “eu sou foda”, que tem um pai doidão e muito simpático, muito diferente do pai Hamilton, que parece dizer com olhar para o filhão: “sim, eu estou pressionando você! Experimente não ganhar!”

Além de que, ele está dando show, andando direitinho, sem errar nada. Como sempre andou, aliás. Só que agora vale muito. E todos estão vendo.

sábado, 2 de maio de 2009

1º de Maio (2)

Para não lembrar os 15 anos da morte de Senna só com chororô, gostaria de deixar uma imagem diferente do Ayrton. 
Talvez nem todos conheçam esse vídeo, gravado pela Fuji TV em Monza, 1987, logo após o anúncio de que a Honda levaria seus motores para a McLaren em 1988 e que Ayrton Senna correria na equipe de Woking ao lado de Alain Prost.
O vídeo traz uma entrevista diferente, um Senna descontraído, não visto com muita freqüência no ambiente da F-1.
Bom, aí vai, e espero que gostem!

Um "Viva" a todos os trabalhadores! 



1º de Maio.

Desde muito menino fui acostumado a levantar cedo nos domingos em que havia corrida de Formula-1. Tal costume herdei de meu pai, que se encantou pelo automobilismo logo no início dos anos 70, e recebeu um grande estímulo quando o Emerson Fittipaldi foi para lá, vencer corridas e o campeonato.

Segundo meu pai, comecei a assistir corridas muito cedo. Talvez seja um exagero dele dizer que foi com uns dois anos de idade. É um fato difícil de ser comprovado e, é claro, é difícil que eu me lembre. De qualquer forma, há muitas fotos em casa de um garoto de fraudas com revistas “Grid”, “Quatro Rodas” em mãos, admirando os carrinhos coloridos.

É óbvio que, se meu pai recebeu estímulo do Emerson para acompanhar religiosamente a Formula-1, para mim tal estímulo veio, como não poderia deixar de ser pela minha idade, de Ayrton Senna.

É claro que vi Piquet correr, vencer e até ser campeão. Mas era muito pequeno e minhas lembranças não chegam tão longe. Hoje em dia, tenho uma admiração tardia por Nelson Piquet, pois, com as facilidades da internet, pude ver uma porção de corridas dele, assim como as de Emerson, e assim perceber que admiráveis pilotos eles eram.

A partir de 1989, minhas lembranças já são muitas, e estão muito ligadas ao Senna. A transmissora oficial da Formula-1 no Brasil tem um papel nisso. A música, a narração emocionada do locutor, por Deus, não tem como não influenciar uma criança! E uma criança eu era.

Meu pai que, hoje eu sei, torceu contra o Senna no começo, a favor de Piquet, com o tempo foi envolvido e convencido de que o homem de capacete amarelo era bom mesmo, e não apenas mais um doido. Então, é claro que, além da transmissora oficial, tem um papel importante meu pai para que eu gostasse do rapaz.

Mas o certo é que, naqueles primeiros anos da minha vida, era quase inconcebível não acordar para assistir uma corrida. Bom, digo “era” inconcebível por força de expressão, porque, hoje em dia, é pior ainda. Naquele tempo, pelo menos, eu não tinha autorização para assistir às corridas de madrugada...

Aliás, na minha vida toda, eu me lembro de ter deixado de assistir apenas a umas três ou quatro corridas inteiras, por uma razão ou outra. Curiosamente, o GP de Ímola de 1994 foi uma dessas.

Cresci no seio de uma família católica que, embora não praticante, fez com que fosse cursar o catecismo. E lá ia eu, tinha aulinhas, tarefa de casa, leituras e etc. Mas eu nunca ia à missa. Minha família não tinha o hábito, eu, igualmente, não o criei. Em verdade, acho que ia ao catecismo porque me sentia obrigado, quase como ir à escola. E eu nunca ia à missa.

Naquela semana, contudo, a professorinha da catequese disse que quem não fosse ao culto seria expulso! A missa que eu deveria ir começaria, justamente, às nove da manhã de domingo... quer dizer, eu perderia pelo menos metade da corrida.

É claro que não fiquei contente. Perder a corrida já tinha, apesar da pouca idade, um caráter cruel para mim. Por outro lado, eu não queria ser expulso da catequese, vai saber o que Deus viria a achar de mim...

Não assisti aos treinos de sexta-feira. Eles não eram transmitidos pela Globo, com exceção dos treinos para o GP do Brasil. Vi no jornal, depois da escola (eu estudava à tarde), a pancada do Barrichello. Só hoje me dou conta do quanto estivemos próximos de ter três mortes e não duas naquele fim de semana.

Sábado de manhã lá estava eu de pé! Não perderia o treino por nada! Seria a terceira pole do Senna no ano! Não poderia ser diferente, afinal ele estava de Williams! Também só hoje me dou conta de que a Williams do Senna não era como a do Prost ou a do Mansell e que a vida dele não seria tão fácil naquele ano. Eu não me lembro de ter total consciência do regulamento. Para mim, a extinção da suspensão ativa e o (re) início dos reabastecimentos (que eu nunca tinha vista na F-1) eram as grandes novidades. De qualquer modo, a pole seria, sim, do Senna.

Mas, a certa altura, veio a porrada do Roland Ratzenberger. Eu nunca havia visto aquilo. A cabeça que pendia, o monocoque rachado, o braço do piloto para fora... isso era só o impacto visual inicial. Pior seria ver o piloto estendido no chão, aquele movimento de pressionar o peito... só lembro de meu pai dizendo embasbacado: “é massagem cardíaca”.

A partir daí o fim de semana ficou muito triste, com aquele sentimento carregado, pesado, no ar. É engraçado que algumas corridas trazem consigo aquela sensação de “a bruxa está solta”. Aquele GP de Ímola estava assim. Outros também carregaram essa sensação – como o GP de Monza de 2000, em que faleceu um fiscal de pista após o mega-acidente após a largada –, mas sem que a gravidade dos acontecimentos chegasse ao nível de Ímola 1994.

E no domingo haveria a corrida que eu estava pré-destinado a não ver por causa da missa. Acordei cedo, caminhei sozinho até a igreja. Um domingo de sol bonito numa cidadezinha no interior de São Paulo.

Voltei para casa caminhando, também sozinho. Entrei pela sala, e vi que a corrida estava rolando. Minha mãe e minha avó estavam com meu pai, o que não era lá muito comum, pois elas normalmente assistiam apenas à largada e voltavam na hora da bandeirada, caso o Senna fosse vencer. Antes mesmo de olhar para a tevê, perguntei ao meu pai: “e aí? Como está o Senna?” Claro que eu me referia a como estava o Senna na corrida, qual a sua posição. Veio a resposta: “Vixi, meu... o Senna bateu e está mal no hospital”. Meu primeiro pensamento foi de frustração, porque se havia batido não ganharia a corrida. Mas ele estava no hospital! Bom, deveria sair logo.

Só comecei a ter dimensão da gravidade da coisa quando fui notando a expressão do meu pai, da minha mãe, o tom de voz do locutor oficial, aquele podium meio estranho. Depois do fim da corrida, ao longo de toda a tarde, já era claro para mim que ele não havia sobrevivido. Não era necessário anúncio qualquer. As imagens da batida, que pude ver então, já eram eloqüentes. Os comissários que não foram falar com o piloto, como de costume, o socorro que tardou, o sangue no chão, a massagem cardíaca. Não tinha jeito, estava morto.

E então a missa a que eu não queria ir me poupou de ver a morte de meu ídolo. Para mim, era o piloto fantástico, o cara carismático, cheio de virtudes, que só hoje posso saber que talvez não fossem tantas assim. Mas essa mitigação do esplendor da imagem que tinha dele naquela época não apagaram a qualidade de ídolo. Afinal, cresci assistindo suas vitórias, ao lado de meu pai, com a narração emocionada do locutor oficial e, no final, aquela musiquinha tão marcante.

Foi essa, enfim, a curiosa história de uma daquelas três ou quatro corridas da minha vida a que não assisti por inteiro. Aliás, essa falta foi suprida apenas no começo deste ano, quando pude assistir a corrida toda, com o auxílio da internet.

De todas essas três ou quatro corridas, Ímola 1994 é a única que não me fez falta alguma. Pelo contrário, sou extremamente grato àquela ameaça de expulsão da catequese que me fez ir à igreja naquela manhã.

Aquele domingo poderia ter mudado minha vida: era eu um menino de 9 anos diante da morte de seu super-herói. E não era nos quadrinhos. O que aconteceria depois? Não assistiria mais à Formula-1? Meu pai não me acordaria mais para ver corridas? Nada disso. Exatamente o contrário. Depois daquele ano, que foi terrível, cheio de histórias mal contadas, e um fim muito feio, minha paixão por corridas só cresceu. Primeiro com a torcida por Damon Hill, depois com Mika Hakkinen, sempre com o Barrichello, a torcida contra o Schumacher – você, eventual leitor, não imagina quanto sofrimento não era torcer contra o Schumacher! Mas, sobretudo, meu entusiasmo por automobilismo começou por causa do homem que se sentava, e senta até hoje, ao meu lado no sofá. Talvez aquele menino de 9 anos não tivesse continuado a assistir Formula-1 se não fosse por aquele homem que sempre o acordava, que o ensinou a se entusiasmar com os carrinhos coloridos desde o berço. Talvez o mais importante de tudo não fosse o Senna e suas vitórias, mas justamente aquele homem ao meu lado.

Hoje já não moramos na mesma cidade, mas viajo sempre que posso para assistir às corridas com ele. Hoje já não torcemos pelo mesmo piloto. Curioso que ele continua gostando de um que corre de McLaren e de capacete amarelo... Torcer por pilotos diferentes traz algumas desavenças, mas que sempre são rapidamente desfeitas. Ambos sabemos que sentar lado a lado no sofá nos domingos de manhã, comentar mais a corrida do que o locutor oficial, acordar minha mãe falando mais alto do que devíamos, tudo isso permeia nossa relação e a torna mais bonita a cada corrida. E ambos sabemos como tudo isso começou, lá atrás, na torcida pelo capacete amarelo a bordo da McLaren vermelha e branca...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

15 anos depois

O jornalista Flávio Gomes escreveu um texto excelente a respeito dos 15 anos da morte de Roland Ratzenberger, no GP de Ímola 1994.



terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A título de introdução

Escrever é a arte de combinar palavras, ajustar forma e conteúdo, transformar o que é tinta no papel em emoções na alma, informações na mente e, se a escrita é realmente boa, contribuir para a formação do ser humano. É óbvio que escrever é um dom de que poucos dispõem. Combinar vocábulos da melhor maneira e expresar idéias e sentimentos é tão difícil quanto combinar notas musicais sem ter um instrumento às mãos. Lendo essas poucas linhas acima, não é difícil perceber que o autor não conta com qualquer talento. Portanto, se você, digno abstrato leitor, perdeu tempo lendo essas coisas, peço perdão. Alerto, entretanto, que antes de se revoltar, lembre-se da lição do grande professor português: a melhor defesa para o leitor insatisfeito é fechar o livro. Aqui, no nosso caso, fecha-se a janela. Mas caso a sua ainda esteja aberta, saiba que nossa intenção aqui é escrever sobre coisas interessantes e promover, na medida do possível, algum intercâmbio de idéias. Coisas interessantes, para este que deixa estas mirradas linhas, são, basicamente, automobilismo, literatura, história, quem sabe a ciência do direito e da política. Coisas muito diferentes entre si, é verdade, mas que se conectam pela paixão que liga o autor a elas. Opiniões são benvindas. Em raríssimas oportunidades faço questão de ter razão a respeito de determinado assunto, o que pode tornar o diálogo mais fácil, ou pelo menos mais agradável.
Assim, despeço-me pela primeira vez, com muita insegurança, pois publicar é automaticamente expor suas deficiências e sujeitar-se às críticas, sejam elas fundadas ou infundadas.